ASCENSÃO DO SENHOR Longe da Mão, mais perto do coração
Num ápice e de forma anormal, vivemos a Quaresma, celebramos a Páscoa e estamos na reta final do Tempo Pascal. Este domingo celebramos na liturgia a Ascensão do Senhor.
Na base da celebração está um acontecimento e um fato: durante algum tempo depois de ressuscitar dos mortos, Jesus foi visto pelos discípulos e por muitas outras pessoas que com Ele conviveram e permaneceram. Essas visões aconteceram por um período que, por razões litúrgicas, se fixou em 40 dias (este é um número que marca muito a caminhada da fé, por isso pode não haver precisão cronológica, mas há certamente preocupação litúrgica na sua calendarização). Para assinalar o momento os relatos falam de uma despedida de Jesus num cenário algo impensável e digno de um filme com efeitos visuais muito ao gosto dos tempos modernos: “enquanto falava com eles foi elevado ao céu e desapareceu por entre as nuvens...”.
Depois, ainda no contexto narrativo, é o próprio escritor que desde logo deixa indícios para uma interpretação de fé que, essa sim, não pode deixar de nos tocar ainda hoje. Diz o autor que “enquanto olhavam os céus pasmados e admirados, apareceram uns personagens que lhes perguntaram e interpelaram «porque estais a olhar para o céu? Esse Jesus que vistes subir e desaparecer aparecerá de novo no fim dos tempos». E o simbolismo da “descida” do monte para regressar às ruas da cidade, define o sentido do acontecimento. Sim, Jesus teve uma vida terrena com princípio, meio e fim e como qualquer ser humano, chegado o termo da sua vida foi-se embora (“foi para o céu”). Agora não está mais presente da mesma forma como antes estava. A sua subida ao céu não significou afastamento, isolamento ou abandono. Não, agora, porque não está como estava, torna-se possível que esteja mais presente do que estava antes. Sem limites espácio-temporais, Jesus torna-se presente em todo o universo e em todas as vidas: “ ide e ensinai todos os povos batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo; e Eu estarei convosco até ao fim dos tempos”. O espaço (todo o mundo) e o tempo (até ao fim dos tempos), são dominados por Jesus, o mesmo é dizer que Ele agora é o Senhor da terra e do céu, de ontem de hoje e de sempre. A realidade que na Vigília da Páscoa cravamos no Círio que então acendemos, torna-se agora uma realidade: Jesus Cristo (Alfa e ómega), o Principio e o fim, ontem hoje e por toda a eternidade,; a Ele pertencem o tempo e a historia”.
A celebração da Ascensão está longe de ser uma celebração de encerramento ou despedida, pelo contrário, ela assinala o início da nova criação, o novo povo do Senhor, os novos céus e a nova terra. O povo percebendo bem este sentido renovador e iniciador, associou o momento à recolha das espigas dos campos, com as quais se alimentava a esperança de um futuro próspero e farto. Celebrar a Ascensão é afirmar a presença e a realeza de Jesus nas nossas vidas, nas nossas comunidades e nas nossas cidades. Este ano, mais que nunca e melhor que nunca, dadas as circunstancias que vivemos, esta celebração tem um sentido mais profundo e é vivida de forma mais consciente e segura. Nunca como nestes dias tivemos a oportunidade para afirmar a realeza e o triunfo do Senhor. Ele está vivo, sim, e vive no meio de nós.
Não deixemos também de sublinhar a verdade desta presença que se manifesta sacramentalmente na hóstia consagrada, mas que, por indicação do próprio Jesus, se realiza também na união dos crentes: “onde dois ou três se reunirem em meu nome... Eu estarei no meio deles”. Nós cristãos precisamos de valorizar mais esta presença, não é tão palpável nem
tão exuberante como a sacramental.... Mas é igualmente real. Onde está Jesus hoje?; sim está na hóstia consagrada. Mas também está na comunidade reunida em seu nome. Ou seja, na comunidade reunida no amor e na verdade.
Valorizemos estas presenças de Jesus e então a Ascensão será o cumprimento pleno do mote popular: “Longe da mão... mais perto do coração”.
N.B. Próximo fim de semana retomaremos as celebrações na paróquia