quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal

É Natal.
Uma mentira, uma farsa, uma ilusão um sonho???
Ou será uma realidade que não compreendemos e está ainda tão distante de nós?
É Natal.. agitam-se as pessoas e as ruas enchem-se de gente stressada. Loucura.
No peito um aperto e uma nostalgia (saudade) que nos abrasa e nos detroi até à morte.
Lembro-me de Ti; pequeno, pobre, humilde, simples. Penso em Ti em criança, conheço as
ruas que atravessaste, imagino os amigos que tiveste e cheiro os aromas que sentiste.
Lembro-me de Ti, qual criança de cabelos lomgos, ingénua, mas feliz...
Se então pensasses no futuro que Te reservava dores e agústias como as que hoje vives...
Terias mesmo assim nascido? Desejarias estar cá?
É Natal, paira no ar uma mistica que assusta e ao mesmo tempo aquece o coração.
Queria que não houvesse Natal, porque assim nunca terias nascido e se não nascesses
eu não estaria agora aqui a pensar na infancia que tiveste e não sentiria a ausencia de Ti
como agora sinto e me faz doer.
Se não houvesse Natal eu estaria melhor do que estou.
Mas quero acreditar que há Natal, porque este é o caminho para ser mais feliz.
Um Bom Natal.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Caiu a noite

Caiu a noite mais uma vez. Nas sombras que me cercam escondem-se segredos e mistérios que não conheço e me assustam. Pairam no ar dúvidas e incertezas. Caminho na rua e tenho medo. Não sei se quero que amanheça mesmo temendo a noite.
Estas ausente, longe e distante. Não sei mesmo se estas. Vejo luzes, ouço vozes, sinto diferentes emoções. Queria-te aqui. Queria sentir-te, cheirar-te, tocar-te. Mas não estas.
Vagueio e a esperança desvanece-se. Morro lentamente e desespero pela tua ausência.
Um dia nada mais restará que uma tenue e fria recordação de ti. Nesse dia quero morrer...levarei comigo uma migalha de ti.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Por ti

Por ti deixei tudo...tudo mesmo. Amigos, familia, trabalho...a vida.
Por ti neguei sonhos, convites, alegrias..tudo por ti.
Certo que foi voluntario, nunca forçado nem obrigado. Livres decisoes que tomei por ti.
Mas serà demais pedir um pequeno reconhecimento? Basta uma palavra "obrigado". É pedir muito? Se sim entao nao digas. Se nao entao porque nao o dizes?
Por ti deixei tudo. Nao queria que por isso me sentisse inutil, gozado e até ridicularizado.
Por ti tudo. Por mim nada?

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

dia seguinte

Os teus caminhos são insondáveis. Dificeis de perceber e entender.
Milhentas perguntas ficam por fazer. E não ha respostas.
Tudo por ti, tudo para ti.
Mas não seria necessário o vazio e a sensação de que tudo perdi.
"Nos deixamos por ti a casa, a familia, os amigo".
E parece que isso não te comove, não te interessa, não te importas.
Ficamos sós... no vazio... sem mais nada...
E o mundo continua a girar. As pessoas continuam a rir.
Seremos loucos? Seremos sábios?
O dia seguinte poderá dizer alguma coisa..
E se não disser, como ficamos?
Onde estas nesta hora tão dificil?
Preciso de ti... e tu ficas no silencio?
Porque? Para que?
Poderas dar-me um sinal, por pequeno que seja?
Fecho-me no meu silencio.
Esta frio... a casa esta vazia... Procuro-te e não estas.
Fico só no vazio e sem saber que rumo tomar.
Irei para longe de ti? Ficarei contigo?
o dia seguinte dirá.

Fim

Lembro o dia em que cheguei... Era domingo a tarde. Pouca gente; festa discreta e ate pouco entusiasta. Dentro sentia grande alegria e expectativa. Estava feliz realizava um desejo e um sonho.
Depois foi a lenta e longa caminhada para fixar nomes e rostos... Vidas. A isso acrescentaram-se os compromissos assumidos. E tudo junto foi tornando a presença mais distante mas mais presa.
Foram anos felizes, mesmo com incompreensoes, perseguiçoes e frustraçoes. Foi bom.
Agora anuncia-se o fim. Mudança, distancia, novidade. Sinto s saudade. Mas sinto tambem a paz. Porque sei que tornei alguem mais livre e mais feliz. Um fim que é um começo.
Agora

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

sem ti nada


Quantas vezes desejei estar contigo?!
Quantas vezes imaginei o reencontro contigo?!
Quantas vezes preparei esse momento a sós contigo?!
Quantas vezes estudei as palavras que deveria dizer-te?!
E apesar de tudo não há sinais de ti.
Não sei onde estas
Não sei para onde vais
Não sei se pensas sequer em regressar.
Interrogo as estrelas do céu
Ausculto os ventos do norte
E leio os sinais dos tempos
Em tudo busco uma razão e uma explicação
Quero compreender o teu silencio.
Mas no fim fico apenas eu e em redor
Faz-se mais silencio.
Não sei nada
Não sou nada
Só sei que sem ti, nada sou.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

onde tu estas...

Onde tu estas renasce a vida e floresce o deserto.
Transforma-se a realidade e renasce a vida.
Onde tu estas, o sol brilha e a luz não se apaga,
Onde tu estas a vida é surpreendente.
E quando tu não estas, a noite assalta-me;
perco-me no deserto e falta-me a vontade de viver.

Onde tu estas sinto-me renovado,
sinto-me diferente,
sinto-me super....
Onde tu estas fica um perfume que me inebria
há uma presença que me domina
Resta um sopro que me anima.

Onde tu estas a vida faz sentido
O futuro não existe
E  passado não aconteceu.
Onde tu estas há apenas o etreno presente.

domingo, 8 de novembro de 2015

So tu sabes

Manha de domingo. Cruzo as ruas da aldeia. Estao vazias. Ninguem para saudar nem mesmo para chatear. Entro na igreja e celebro. Poucos entusiastas. Pouco entusiasmo. Mas celebramos. O quê? Nao sei, creio que ninguem sabe. Mas estamos lá e celebramos. Depois uma maratona de celebraçoes bem preparadas e harmonizadas. É belo, mas parece oco.
Hora de almoço. Paramos. Sem apetite enganamos a fome. Comemos por comer. E o momento mais calmo proporciona um relax e uma reflexao. Agora ha muita gente, movimento e algazarra. E no meio do ruido sei que so Tu sabes a verdade; só Tu conheces a beleza da vida. Como te invejo. Mas eu nao sou tu. Toca o telefone. Mais trabalho, com exigencias e criterios. Tudo como a vontade e o desejo querem. E máis uma vez a verdade escapa, desaparece e foge.
Sinto-me incomodado, sinto-me mal e pergunto afinal onde esta o sentido de toda a manha?! Mais uma vez só Tu sabes.
E o que é triste é que nao dizes nada.
Inicio da tarde... O melhor é esquecer. Dormimos para esquecer. É triste.... A vida é nossa mas SÓ TU conheces a sua verdade.

domingo, 1 de novembro de 2015

A deus

Nao sei o teu nome; nao sei quem es; nao sei de onde vieste e nao sei onde estas nem para onde iras. O que sei é muito pouco. Sei que existes; sei que estas por ai; sei que sentes e que sabes que sei. E sei que os teus caminhos se cruzaram com os meus e caminhamos juntos. Para tras ficavam outras vidas e o horizonte la a frente abria novas esperanças e sonhos. Depois, um dia, outras estradas indicavam outros caminhos e seguimos rumos diferentes. Agora ando perdido e percorro atalhos que levam nao sei onde. Lembro o adeus como o momento em que morri.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Noite escura

Ha sons novos nesta noite. O silencio abafa os ruidos. Houvem-se sons que o dia apaga.
E ha luzes.... Luzes que o dia desconhece.
E assim nasce a paz. Aquela que o dia desconhece. ...
Paz....silencio.... Coraçao. Sim ouve-se o ritmo do coraçao.
E nele uma voz. A tua. Inquietante, intrigante, penetrante, desafiante.
La ao fundo....tao longe..... Uma luz...pequenina e tao envolvente, tao potente.
Obrigado por existires. Obrigado por me iluminares.
Que paz traz este silencio. Sou daqui mas nao estou aqui. Estou aí, nessa luz.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Por mim?...

Na cruz....morto, abandonado, humilhado, esquecido. Um farrapo humano. Uma vergonha.
E dizem que foi por mim, por minha causa.
Porque? Eu nem te conhecia. Que fiz eu, para que morresses dessa forma?
Nao entendo, nao percebo. E tudo isso me faz sentir mal.
Jamais quereria isso. Jamais imaginei isso. Jamais poderei aceitar isso.
Precisas convencer-me de que era a unica forma de me mostrares que gostavas de mim. Precisas ser forte nos teus argumentos.
E a verdade é que quando te vejo na cruz e penso que foi por mim choro e revolto-me.
Acredita....eu nao queria isto para ti.
Diz-me: posso fazer alguma coisa para te tirar dessa cruz?
Farei tudo o que quiseres.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Onde estas?

Onde estas????
Procuro-te de manha à tarde e à noite e nao te encontro.
Aqui estou: so, sem saber para onde ir; sem saber o que fazer e sem saber onde estas.
É noite. Procuro-te e nao te encontro. Chamo por ti e nao me respondes.
Onde estas?
Queria-te aqui e nao estas!
Queria-te falar, mas nao me ouves.
Queria-te.... Mas nao te tenho.
Onde estas.... Deus.., onde moras? Onde te posso encontrar?
Onde estas?

Esquece-me

Senhor,
Porque me persegues?
Porque teimas em procurar-me?
Porque nao deixas de chamar por mim?

Vagueio pelo emaranhado dos acontecimentos de cada dia; busco zonas escuras onde possa esconder-me; invento desculpas que me permitam estar longe...

E ainda assim sinto os teus passos na rua, ouço os teus apelos; e vejo os teus gestos repentinos...fico envergonhado. Quase desejo mostrar-me... Mas depois retraio-me e esgueiro-me para a escuridao.

Choro porque sinto e vejo o teu afã; mas nao consigo aparecer.

Desculpa senhor. Porque teimas em me encontrar? Porque me procuras? Desiste, esquece-me, nao chames mais por mim.

Nao mereço, nao Te mereço. A minha companhia so te prejudicará. Faz um reset e esquece- te de mim.

Senhor, porque me procuras? Senhor porque teimas em me perseguir?

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Fim de tarde, poe-se o sol

Surgiu pela manha, forte, vigoroso, sorridente e estridente. Durante horas percorreu a imensidao do espaço, de forma lenta, pachorrenta, e sinlenciosa...tudo sem se mover.
Durante o percurso espreitou inumeras vidas, assistiu a Incontaveis nascimentos e duplicadas mortes. Indiferente ou talvez nao continuou o seu caminho.
Agora mais enfraquecido vemo-lo morrer para la do mar. Morte triste porque solitaria.
E penso na minha vida tao diferente e tao igual.
Amanha voltara a nascer?

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Perfume

No meu jardim uma rosa. Estranha, solitaria, nao é minha. Nao a semeei. De certo nasceu de uma semente que outrora, ha muitos anos, lancei. Nao é de hoje é de sempre.
E é bela a rosa. Doce, fresca e perfumada. Nao tem cor, porque é de todas as cores. E cresce no meu jardim.
Rego-a sempre que rego o jardim. Sei que nao é minha mas trato-a como se fosse.
Penso que um dia irei procurar o seu dono. E sinto que algo me diz que o seu dono serei eu. Porque a rosa afinal é minha.

Es demais

Senhor eu sei que tu me sondas... Sim eu sei que tu me segues e persegues. Eu sei, senhor que tu nao me largas.
Pergunto-me porque e nao sei (aqui nao sei mesmo) nao sei responder.
Penso que es fraco...porque apostas em mim. Ou seras louco?
Mas depois choro porque penso que tu me amas.
Eu sei senhor que tu estas ai. Eu sei que tu me sondas.
Obrigado.

domingo, 27 de setembro de 2015

Domingo

Todos vemos e todos sabemos: os tempos modernos em nome da modernidade, tomaram conta do domingo. Claro que para isso tiveram que lhe tirar o original sentido. O domingo existe, como dia de descanso, por causa da tradiçao crista: é o dia do senhor. Por ser o dia do senhor é o dia dedicado a atividades e gestos que nos preenchem mas que no quotidiano passam ao lado por falta de tempo: deus, a familia, os doentes, a cultura e ate o divertimento.
Tudo estaria bem se a mentalidade moderna nao tivesse apostado apenas num destes aspetos. Mesmo sem dizer qual, tu leitor ja sabes qual é. Certo?
Se respondeste sem exitaçoes entao nao preciso dizer mais nada.... Conclui tu este artigo.
Se  nao sabes responder entao pudemos conversar e partilhar ideias. Contata-me.
Um bom domingo para ti ( sabes o que isso significa?)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Viver

Um mundo e uma vida estranhos. Na mao a possibilidade de felicidade... Na mente enganos, atropelos e ilusoes.
Afinal porque nao vivemos serenos, tranquilos e em paz?
Incomoda assim tanto ser unico, original e diferente?
Sim, porque afinal o que acontece é que estragamos a hipotese de ser felizes, em nome da igualdade, da aceitacao publica e da inserçao .
Loucos que somos.

domingo, 13 de setembro de 2015

E SE FOR VERDADE?

Observar a forma tao irrefletida com que a maioria das pessoas vive a vida de cada dia, suscita uma inevitavel pergunta no nosso intimo: e se for verdade que Deus existe ? e se for verdade que um dia diante dele teremos de prestar contas sobre as opcoes que tomamos cada dia?
Na verdade vivemos tao distraidos e ja envolvidos nesta mentalidade ateia que procura distanciar Deus e distanciar-se de Deus, que ja nao acreditamos em nada. E sem crencas tambem nao temos mais medos nem receios. E assim vivemos a nossa maneira, longe de tudo e de todos.
Mas, e se for verdade que Deus existe e que um dia nos vai questionar sobre o que fizemos da vida que Ele nos deu? Que relatorio, que respostas iremos nos apresentar-Lhe?  Estou em crer que vai haver muitas surpresas...

domingo, 30 de agosto de 2015

domingo?

Dizem que tudo nao passou de uma formatacao e que por isso mesmo o que aprendi nao e real. 

Aprendi que o domimgo era o dia do senhor . E como tal era o dia em que, como crente, vivenciava experiencias diferente do quotidiano: os amigos, a familia e os mais solitarios. Momentos de que habitualmente estamos distanciados ou esquecidos. E assim vivi e foi bom.
Hoje e domingo. 

Mas um domingo diferente, estranho, duro, terrivel. Estou so. Nao sei dos amigos, da familia nem dos mais distantes. Parece que todos desertaram e fugiram. E aqui estou eu, sozinho, sem mais ninguem.
Invadem-me a memoria pensamentos e recordacoes de outros domingos. Quando este era o dia mais desejado e esperado. E no meio da diferenca sou invadido pela tristeza e pela dor. A unica saida....chorar. 

E choro porque o domimgo ja nao e o que era e assim fiquei sem alegria, sem paz, sem adrenalina.
Triste?sim. 


Amanha sera segunda feira, nao sei se estarei ca para ver e sentir.



sábado, 29 de agosto de 2015

Saudade

O frio cortava a pele e gelava as lagrimas; a noite caia mais escura que o habitual; as ruas ficavam desertas e solitarias. E nas janelas brilhavam as luzes das vidas que do lado de dentro se animavam ou aninhavam. Sozinho caminhava no passeio sem receios ou medos de atropelos. E batia o coraçao ao ritmo descontrolado como os passos que dava quando caminhava.
O sino da igreja batia de forma esganada e abafada e o som triste e arrastado fazia-me lembrar de ti. E assim nascia a saudade.
Vaguearam pensamentos nao do que vivemos no passado mas dos que poderiamos viver no futuro.
Lembrei que esse futuro ja nao era possivel e debrucei-me no muro que me separava da imensidao do mar.
Foi ai que sozinho chorei.... O que pensei so eu sei e guardo comigo.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Duvidas

novo dia novas experiencias e novas vivencias. Mas dentro de mim o mesmo rebolico, os mesmos sentimentos  e as mesmas duvidas. Sim, tudo o que tenho vivido nos ultimos tempos esta agora transfromado em duvida. Duvidas sobre o passado, sobre o presente e, claro, sobre o futuro. Duvidas sobre mim mesmo, os outos, a verdade e, obviamente, sobre o proprio Deus. Duidas, enfim, que crecem como nuvens de fumo e escondem os fracos raios de sol que as nuvens deixam passar. Duvidas que se transformam em medo, e terminam em pranto e raiva. Duvidas que doem por trazerem consigo a vergonha e por desmascararem a inocencia com que sempre vivi. Afinal eu estava enganado.Afinal eu fui anganado. E o que sempre defendi e acreditei... era mentira... seria?

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

estranhas vivencias

Passam os dias de forma lenta e pachorrente. Nascem raidantes de sol e terminam sem luz e frios. Por vezes, inexplicavelmente, passa-se ao contrario. e no meio de tudo isto aqui estou eu a atravessa-los todos a vive-los todos. Mas como eles tambem eu acordo frio ou quente e adormeco quente ou frio. E tudo porque? apenas porque vivo por estes dias uma experiencia nova, escolhida mas nunca tida. E tudo se torna novo, diferente e estranho. Por vezes temho vontade de parar e desistir. Outras vezes quero ir em frente.
Mas tenho medo. Muito medo. E o inverno quase a chegar.... sera doloroso.

sábado, 22 de agosto de 2015

Nostalgia

Este dia de verao cheira e sabe a outono. Porque finalmente posso parar aqui estou.
Gosto, é bom. Mas ao mesmo tempo tenho medo. Antevejo as tardes de outono e temo nao conseguir aguentar o que sempre gostei: a solidao

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Outrora hoje

De quando em vez invade-me a nostalgia de determinados tempos, cheiros e espaços. Lembro as madrugadas frias e serenas na casa de meus avós. O cheiro a café de mistura tonificava o ar que respirava. E havia orvalho fresco a refrescar a cara. Lembri minha avó velha e curvada sob o peso dos anos. Nao lembro o timbre da sua voz, porque
Nao falava... Apenas olhava e interiorizava. Por vezes chorava.
A frescura da manha era aquecida pelo fumo e  cheiro a carqueja que pairava no ar. Sentia-o mas nao o percebia.  Havia reboličo e havia paz....muita paz.
Essa que perdi e que procuro todos os dias... Mas que sei nunca encontrarei porque estou só... Muito só.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O silencio de Deus

JAqui estou nesta nova fase na minha vida. Se por um lado tudo parece novo, por outro reonheço estes espaços porque eles fazem parte de mim. Ja por aqui andei, ja percorri estas estradas. A novidade esta no fato de agora eu estar mais vazio, mais inseguro e mais debil. Problemas de idade? Nao sera certamente a unica razao.
As coisas, as pessoas, as certezas de outrora parecem agora estranhas e assustam-me. Ha uma certa melancolia que ocupa os espaços outrora preenchidos pela adrenalina e o entusiasmo. Olho à volta e fico por isso assustado. Temo agora o dia de amanha, quando antes ardia no desejo de que chegasse.
E parece que ate Deus se calou.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

viver a vida é....



Interrogo-me seriamente sobre a medida com a qual é avaliada a vida. Sobretudo porque ela se situa no plano da intensidade e não da longevidade ou da sensibilidade. Viver a vida passa muito, senão mesmo tudo, pela profundidade com que se vivem os momentos. Estes valem não tanto pela sua durabilidade quanto pelas emoções que são capazes de suscitar em nós.
Nestes dias finais de Julho e primeiros de agosto deste verão meio chocho, sinto um emaranhado de sensações e sentimentos tão diversos dentro de mim que acabo por ver a vida de forma nova, diferente do habitual.
Tenho medo... mas também tenho paz... parece-me que a verdade está agora mais alcance do que nunca esteve, mas temo encontra-la. E no entanto sempre a desejei e procurei.
Não sei onde isto me vai levar... mas para já sei que o sinto. Veremos.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Amigo fiel

Sombras na luz

O verão tem este condão de ser um tempo de luz, calor e cores garridas e ao mesmo tempo deixa ver o outro lado: a sombra, o negro e o frio. Afinal quanto mais sentimos uma realidade mais e melhor conhecemos o seu contrario.
O verão tambem è ferias. Mas férias pode significar mais trabalho e mais stress. Nao devia ser assim.,.mas é.
Vem isto a proposito dos sentimentos que vou experimentando por estes dias e que se têm revelado muito confusos

sábado, 18 de julho de 2015

Reencontro

Por estes dias iniciei um processo de regressao que me tem levado a um reencontro comigo mesmo.
O que fui e me levou a trilhar os caminhos que hoje percorro, foi esquecido ha algum tempo. Consciente disso vaguei por terras desconhecidas. A embriaguez da paisagem e da novidade fez-me esquecer a razao de estar aqui.
A verdade é que o tempo não foi perdido, pelo contrario. Tudo o que entretanto aconteceu foi marcante e foi construtivo.
Mas havia ca no fundo uma saudade que desembocava em tristeza. Por isso regredi.
Estou agora a trilhar outros caminhos que nao sendo novos estão repletos de novidade. É bom. Mas tenho medo.
Veremos onde atravessaremos a meta. Veremos se la chegamos.

sexta-feira, 13 de março de 2015

O caminho que leva à vida

Caminhamos a passos largos para a Páscoa. A liturgia do 4º domingo da quaresma é uma ajuda para vislumbrarmos melhor o sentido desta festa e também da penitência que entretanto vivemos.
A primeira leitura refere dois factos históricos separados por quase 50 anos: a queda de Jerusalém nas mãos de Nabucodonosor (586 a.C.) e a autorização dada pelo rei persa Ciro para o regresso dos exilados a Jerusalém, após a queda da Babilónia (538 a.C.). Pelo meio, o Povo de Deus conheceu a dramática experiência do Exílio na Babilónia. Contudo, o autor está muito mais interessado em dar-nos uma interpretação teológica dos factos do que em oferecer-nos uma descrição pormenorizada dos acontecimentos históricos.
Por detrás desta leitura da história, está uma noção um tanto ou quanto primitiva da justiça de Deus: quando o Povo vive na fidelidade à Aliança e aos mandamentos, Deus oferece-lhe vida e felicidade; quando o Povo é infiel aos compromissos assumidos, conhece morte e desgraça. De qualquer forma, o Cronista está consciente de que o castigo não é a última palavra de Deus.
A primeira leitura diz-nos que, quando o homem prescinde de Deus e escolhe caminhos de egoísmo e de autossuficiência, está a construir um futuro marcado por horizontes de dor e de morte. No entanto Deus dá sempre ao seu Povo outra possibilidade de recomeçar, de refazer o caminho da esperança e da vida nova.
A segunda leitura apresenta-se como uma carta escrita por Paulo, numa altura em que o apóstolo está na prisão (em Roma?).
O texto que nos é proposto apresenta-nos uma reflexão sobre o papel de Cristo na salvação do homem. O ponto de partida do autor da Carta aos Efésios é a constatação da situação de pecado em que o homem vive e da qual, por si só, não pode sair. O homem estará, portanto, condenado à escravidão do pecado e à morte?
Deus é rico em misericórdia e ama o homem com um amor imenso. Por isso, à situação pecadora do homem, Deus responde com a sua graça. O amor salvador e libertador de Deus não é um amor condicional, que só se derrama sobre o homem se e quando o homem se converte; mas é um amor incondicional, que atinge o homem mesmo quando ele continua a percorrer caminhos de pecado e de morte.
A segunda leitura ensina que Deus ama o homem com um amor total, incondicional, desmedido; é esse amor que levanta o homem da sua condição de finitude e debilidade e que lhe oferece esse mundo novo de vida plena e de felicidade sem fim.
O Evangelho apresenta-nos uma parte da conversa entre Jesus e um “chefe dos judeus” chamado Nicodemos
No texto que nos é proposto, Jesus começa por explicar a Nicodemos que o Messias tem de “ser levantado ao alto”, como “Moisés levantou a serpente” no deserto. A imagem do “levantamento” de Jesus refere-se, naturalmente, à cruz. É aí que Jesus manifesta o seu amor e que indica aos homens o caminho que eles devem percorrer para alcançar a salvação, a vida plena.
Aos homens é sugerido que acreditem no “Filho do Homem” levantado na cruz, para que não pereçam mas tenham a vida eterna. “Acreditar” no “Filho do Homem” significa aderir a Ele e à sua proposta de vida; significa aprender a lição do amor e fazer, como Jesus, dom total da própria vida a Deus e aos irmãos (vers. 15). É dessa forma que se chega à “vida eterna”.
Somos convidados a olhar para Jesus, a aprender com Ele a lição do amor total, a percorrer com Ele o caminho da entrega e do dom da vida. É esse o caminho da salvação, da vida plena e definitiva.
O amor de Deus traduz-se na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre e que não discrimina ninguém. Aos homens – dotados de liberdade e de capacidade de opção – compete decidir se aceitam ou se rejeitam o dom de Deus.
Às vezes, os homens acusam Deus pelas guerras, pelas injustiças, pelas arbitrariedades que trazem sofrimento e morte que pintam as paredes do mundo com a cor do desespero… A liturgia deste domingo diz-nos que o sofrimento e a morte não vêm de Deus, mas são o resultado das escolhas erradas feitas pelo homem que se obstina na autossuficiência e que prescinde dos dons de Deus.
O cristão não vive no medo, pois ele sabe que Deus é esse Pai cheio de amor que oferece a todos os seus filhos a vida eterna. Não é Deus que nos condena; somos nós que escolhemos entre a vida eterna que Deus nos oferece ou a eterna infelicidade.

A liturgia aponta ainda o caminho que todo o homem deve seguir para chegar à vida eterna: trata-se de “acreditar” em Jesus. “Acreditar” em Jesus não é uma mera adesão intelectual ou teórica a certas verdades da fé; mas é escutar Jesus, acolher a sua mensagem e os seus valores, segui-lo nesse caminho do amor e da entrega ao Pai e aos irmãos. Passa pelo ser capaz de ultrapassar a indiferença, o comodismo, os projetos pessoais e pelo empenho em concretizar, no dia a dia da vida, os apelos e os desafios de Deus; passa por despir o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, os preconceitos, para realizar gestos concretos de dom, de entrega, de serviço que tragam alegria, vida e esperança aos irmãos que caminham lado a lado connosco.

Neste tempo de caminhada para a Páscoa, somos convidados a converter-nos a Jesus e a percorrer o mesmo caminho de amor total que Ele percorreu.

sexta-feira, 6 de março de 2015

A vida nova que Deus nos oferece

Na primeira leitura, Deus oferece-nos um conjunto de indicações que devem balizar a nossa caminhada pela vida. São leis e normas que abarcam os dois vetores fundamentais da existência humana: a relação do homem com Deus e a relação que cada homem estabelece com o seu próximo.
O que está em jogo não é o respeitar regras “religiosamente corretas”, o evitar que Deus tenha razões de queixa contra nós, ou o fugir aos castigos divinos; mas é, antes de mais, o construir a nossa própria felicidade.
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus… É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está na lógica da cruz – isto é, no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.
Judeus e gregos, cada um à sua maneira, buscam seguranças. Os judeus procuram milagres que garantam a veracidade da mensagem anunciada; os gregos procuram as belas palavras, a coerência do discurso, a lógica dos argumentos…
A essência da mensagem cristã está na “loucura da cruz” – isto é, na lógica ilógica de um Deus que veio ao encontro da humanidade, que fez da sua vida um dom de amor e que aceitou uma morte maldita para ensinar aos homens que a verdadeira vida é aquela que se coloca integralmente ao serviço dos irmãos, até à morte.
O caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. Nele manifesta-se de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus.
No Evangelho, Jesus apresenta-Se como o “Novo Templo” onde Deus Se revela aos homens e lhes oferece o seu amor. Convida-nos a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar.
Quando Jesus pega no chicote de cordas, expulsa do Templo os vendedores de ovelhas, de bois e de pombas, deita por terra os trocos dos banqueiros e derruba as mesas dos cambistas (vers. 14-16), está a revelar-Se como “o messias” e a anunciar que chegaram os novos tempos, os tempos messiânicos.
Jesus apresenta-se como o “novo Templo”. O Templo representava, no universo religioso judaico, a residência de Deus, o lugar onde Deus Se revelava e onde Se tornava presente no meio do seu Povo. Jesus é, agora, o lugar onde Deus reside, onde Se encontra com os homens e onde Se manifesta ao mundo.
É através de Jesus que o Pai oferece aos homens o seu amor e a sua vida. Aquilo que a antiga Lei já não conseguia fazer – estabelecer relação entre Deus e os homens – é Jesus que, a partir de agora, o faz.
Membros do Corpo de Cristo, os cristãos são pedras vivas desse novo Templo onde Deus Se manifesta ao mundo e vem ao encontro dos homens para lhes oferecer a vida e a salvação.
Esta realidade supõe naturalmente, para os crentes, uma grande responsabilidade… Os homens do nosso tempo têm de ver no rosto dos cristãos o rosto bondoso e terno de Deus; têm de experimentar, nos gestos de partilha, de solidariedade, de serviço, de perdão dos cristãos, a vida nova de Deus; têm de encontrar, na preocupação dos cristãos com a justiça e com a paz, o anúncio desse mundo novo que Deus quer oferecer a todos os homens. Talvez o facto de Deus parecer tão ausente da vida, das preocupações e dos valores dos homens do nosso tempo tenha a ver com o facto de os discípulos de Jesus se demitirem da sua missão e da sua responsabilidade…
Evidentemente, não são os ritos solenes e pomposos, mas vazios, estéreis e balofos. O culto que Deus aprecia é uma vida vivida na escuta das suas propostas e traduzida em gestos concretos de doação, de entrega, de serviço simples e humilde aos irmãos. Quando somos capazes de sair do nosso comodismo e da nossa autossuficiência para ir ao encontro do pobre, do marginalizado, do estrangeiro, do doente, estamos a dar a resposta “litúrgica” adequada ao amor e à generosidade de Deus para connosco.

Ao gesto profético de Jesus, os líderes judaicos respondem com incompreensão e arrogância. Consideram-se os donos da verdade e os únicos intérpretes autênticos da vontade divina. Instalados nas suas certezas e preconceitos, nem sequer admitem que a denúncia que Jesus faz esteja correta. A sua autossuficiência impede-os de ver para além dos seus projetos pessoais e de descobrir os projetos de Deus. Trata-se de uma atitude que, mais uma vez, nos questiona… Quando nos barricamos atrás de certezas absolutas e de atitudes intransigentes, podemos estar a fechar o nosso coração aos desafios e à novidade de Deus.


quarta-feira, 4 de março de 2015

Nunca Desistir ...

No segundo Domingo da Quaresma, a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir para chegar à vida nova: é o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projetos, o caminho da obediência total e radical aos planos do Pai.
O relato da Transfiguração de Jesus ensina-nos que Deus não deixa sem recompensa os que seguem esse caminho.

O relato da primeira leitura é uma autêntica catequese. Nesta “catequese”, a intenção fundamental do autor não é dizer-nos quem é Deus e como é que Ele age (por isso, não adianta estarmos a “perguntar” ao texto se, na realidade, os métodos de Deus passam por submeter o homem a provas desumanas a fim de o “testar”). A história do sacrifício de Isaac destina-se, sobretudo, a propor-nos a atitude que o crente deve assumir diante de Deus. Abraão é apresentado como o protótipo do crente ideal, que sabe escutar Deus e acolher os seus projetos com obediência incondicional, com confiança total… Mesmo que as propostas de Deus resultem incompreensíveis ou que os desafios de Deus interfiram com os projetos do homem, o crente ideal deve acolher os planos de Deus e realizá-los com fidelidade. Foi para deixar esta lição aos seus concidadãos – lição que serve, naturalmente, para os crentes de todos os tempos – que os teólogos foram buscar esta velha lenda.

A segunda leitura lembra aos crentes que Deus os ama com um amor imenso e eterno. A melhor prova desse amor é Jesus Cristo, o Filho amado de Deus que morreu para ensinar ao homem o caminho da vida verdadeira. Sendo assim, o cristão nada tem a temer e deve enfrentar a vida com serenidade e esperança.
A razão para a esperança dos cristãos está na certeza que Deus ama todos os seus filhos com um amor imenso e eterno. O envio ao mundo de Jesus Cristo, o Filho único de Deus, que nos ensinou o caminho da vida plena e da felicidade sem fim, que lutou até à morte contra tudo o que oprimia e escravizava o homem, é a “prova provada” do imenso amor de Deus por nós (vers. 32).
Ora, se Deus nos ama dessa forma tão intensa e tão total, nada nem ninguém nos pode acusar, condenar, destruir ou fazer mal. É Deus “quem nos justifica” (vers. 33) – quer dizer, é Deus que, na sua imensa bondade, pronuncia sobre nós um veredicto de graça e de perdão, apesar das nossas faltas e infidelidades. Ninguém nos condena pois o próprio Deus (o único que o poderia fazer) escolheu salvar-nos, mesmo que o não merecêssemos.
Sendo assim, o cristão deve enfrentar a vida com serenidade e esperança, confiando totalmente no amor de Deus.

O Evangelho relata a transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo Testamento, o autor apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que vai concretizar o seu projeto libertador em favor dos homens através do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o, vós também.
Depois de terem ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem constatado aquilo que Jesus pede aos que O querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados, pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se para um rotundo fracasso; eles vêem esfumar-se – nessa cruz que irá ser plantada numa colina de Jerusalém – os seus sonhos de glória, de honras, de triunfos e perguntam-se se vale a pena seguir um mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte na cruz.
É neste contexto que Marcos coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos (e para os crentes, em geral), pois nela manifesta-se a glória de Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o Filho amado de Deus.

Na verdade, onde é que está a realização plena do homem? Quem tem razão: Deus, ou os esquemas humanos que hoje dominam o mundo e que nos impõem uma lógica diferente da lógica do Evangelho?

Pela transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.
Na verdade, os homens do nosso tempo têm alguma dificuldade em perceber esta lógica… Para muitos dos nossos irmãos, a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências (até ao dom total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não está no serviço simples e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, dos mais marginalizados, dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio uma dose generosa de poder, de influência, de autoridade, de domínio, que dê a sensação de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida como dom, com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado de conquista de honras, de glórias, de êxitos.


Por vezes somos tentados pelo desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus; ou então, parece que, seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e fracassados, que nunca integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca chegaremos a conquistar o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado… A transfiguração de Jesus grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois a lógica de Deus não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Construir um Mundo Novo

No primeiro Domingo do Tempo da Quaresma, a liturgia fala-nos do Reino de Deus como expressão ou imagem do mundo que Deus quer dar à humanidade. A construção deste mundo novo exige a destruição do antigo.

Pedimos ao Senhor que fomente em nós as atitudes necessárias para sermos construtores deste novo mundo. 
O texto da primeira leitura situa-nos na fase imediatamente posterior ao dilúvio, quando já tinha deixado de chover e quando Noé e a sua família já tinham desembarcado em terra seca. Os sobreviventes construíram um altar e ofereceram holocaustos sobre o altar; por sua vez, o Senhor Deus comprometeu-Se a não mais “castigar os seres vivos” de forma tão radical (cf. Gn 8,13-22), abençoou Noé e a sua família (cf. Gn 9,1-7) e fez uma Aliança com eles.
A Aliança de Deus com Noé não implica nenhuma adesão ou reconhecimento da parte do homem, nem implica qualquer promessa, por parte do homem, no sentido de não voltar a percorrer caminhos de corrupção e de pecado. A Aliança que Deus faz com Noé aparece, assim, como um puro dom de Deus, um fruto do seu amor e da sua misericórdia. É uma Aliança incondicional e sem contrapartidas, que resulta exclusivamente da bondade e da generosidade de Deus.

O texto da segunda leitura é a parte final de uma perícopa (cf. 1 Pe 3,13-4,11) na qual o autor da carta explica qual deve ser a atitude dos crentes, confrontados com as provocações, as injustiças e a hostilidade do mundo. Depois de pedir aos crentes que mesmo no meio do sofrimento não se cansem de fazer o bem (cf. 1 Pe 3,13-17), o autor da carta apresenta a razão fundamental pela qual os crentes devem agir desta forma tão “ilógica”: esse foi o exemplo que Cristo deixou.
Na segunda leitura, o autor da primeira Carta de Pedro recorda que, pelo Batismo, os cristãos aderiram a Cristo e à salvação que Ele veio oferecer. Comprometeram-se, portanto, a seguir Jesus no caminho do amor, do serviço, do dom da vida; e, envolvidos nesse dinamismo de vida e de salvação que brota de Jesus, tornaram-se o princípio de uma nova humanidade.

O Evangelho situa-nos na Galileia, zona em permanente contacto com o mundo pagão e, portanto, considerada à margem da história da salvação.
Mais do que uma descrição fotográfica de acontecimentos concretos, trata-se de uma catequese. Está carregado de símbolos, que é preciso descodificar para entender a mensagem proposta.
Temos aqui uma catequese sobre as opções de Jesus. Marcos sugere que, ao longe de toda a sua existência (“quarenta dias”), Jesus confrontou-Se com dois caminhos, com duas propostas de vida: ou viver na fidelidade aos projetos do Pai, fazendo da sua vida uma entrega de amor, ou frustrar os planos de Deus, enveredando por um caminho messiânico de poder, de violência, de autoridade, de despotismo, ao jeito dos grandes deste mundo. Jesus escolheu viver na obediência às propostas do Pai; da sua opção, vai surgir um mundo de paz e de harmonia, um mundo novo que reproduz o plano original de Deus.
Jesus mostra-nos como a renúncia a caminhos de egoísmo e de pecado e a aceitação dos projetos de Deus está na origem do nascimento desse mundo novo que Deus quer oferecer a todos os homens (o “Reino de Deus”).
Para que o “Reino de Deus” se torne uma realidade, o que é necessário fazer? Na perspetiva de Jesus, o “Reino de Deus” exige, antes de mais, a “conversão”.

“Converter-se” significa transformar a mentalidade e os comportamentos, assumir uma nova atitude de base, reformular os valores que orientam a própria vida. É reequacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da existência do homem e ocupe sempre o primeiro lugar. Na perspetiva de Jesus, não é possível que esse mundo novo de amor e de paz se torne uma realidade, sem que o homem renuncie ao egoísmo, ao orgulho, à autossuficiência e passe a escutar, de novo, Deus e as suas propostas.

“Acreditar” não é, apenas, aceitar um conjunto de verdades intelectuais; mas é, sobretudo, aderir à pessoa de Jesus, escutar a sua proposta, acolhê-la no coração, fazer dela o guia da própria vida. “Acreditar” é escutar essa “Boa Notícia” de salvação e de libertação (“evangelho”) que Jesus propõe e fazer dela o centro à volta do qual se constrói toda a existência.


“Conversão” e “adesão ao projecto de Jesus” são duas faces de uma mesma moeda: a construção de um homem novo, com uma nova mentalidade, com novos valores, com uma postura vital inteiramente nova. Então, sim teremos um mundo novo – o “Reino de Deus”

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Contra a Discriminação

O Livro do Levítico apresenta-se como um conjunto de discursos nos quais Deus teria explicado ao Povo o que este deveria fazer para viver sempre em comunhão com Deus, no âmbito da Aliança.
Desde tempos imemoriais, certos “tabus” interditavam aos israelitas o contacto com determinadas realidades (o sangue, um cadáver, certos tipos de alimentos, etc.). O contacto com a “impureza” não era pecado; mas o homem devia “limpar” a “impureza” contraída, logo que possível. O caso mais grave de “impureza” era causado por uma doença – a lepra. É a essa realidade que o nosso texto se refere.
A exclusão dos “leprosos” da comunidade tinha razões religiosas… Para a mentalidade tradicional do povo bíblico, a doença era sempre um castigo de Deus para os pecados e infidelidades do homem. Ora, uma doença tão assustadora e repugnante como a “lepra” era tida como um castigo terrível para um pecado especialmente grave. O “leproso” era considerado, portanto, um pecador, especialmente amaldiçoado por Deus, indigno de pertencer à comunidade do Povo de Deus.
A partir de uma imagem deturpada de Deus, os homens são capazes de inventar mecanismos de discriminação e de rejeição em nome de Deus.
O texto que hoje nos é proposto é a conclusão do ensinamento sobre a atitude a tomar face ao problema de comer ou não comer a carne dos animais imolados aos ídolos
A segunda leitura convida os cristãos a terem como prioridade a glória de Deus e o serviço dos irmãos. O exemplo supremo deve ser o de Cristo, que viveu na obediência incondicional aos projetos do Pai e fez da sua vida um dom de amor, ao serviço da libertação dos homens.

<no Evangelho encontramos o diálogo de Jesus com um leproso. A cena coloca Jesus frente a um leproso, num sítio e num lugar não nomeado.
O leproso era o protótipo do marginalizado, do excluído, do segregado. A sua condição afastava-o, não só da comunidade dos homens, mas também do próprio Deus.
O Evangelho destaca a reação de Jesus. Uma reação estranha, pelo menos de acordo com os padrões judaicos. Em lugar de se afastar do leproso e de o acusar de infringir a Lei, Jesus olha-o “compadecido”, estende a mão e toca-lhe (vers. 41).
Ao tocar o leproso, Jesus está a infringir a Lei. Dessa forma, Ele denuncia uma Lei que criava marginalização e exclusão.
Jesus, com a autoridade que Lhe vem de Deus, mostra que a marginalização imposta pela Lei não expressa a vontade de Deus. O gesto de tocar o leproso mostra que a distinção entre puro e impuro consagrada pela Lei não vem de Deus e não transmite a lógica de Deus; mostra que Deus não discrimina ninguém, que Ele quer amar e oferecer a liberdade a todos os seus filhos e que a todos Ele convida a integrar a família do “Reino”, a nova humanidade.
O Evangelho diz-nos que, em Jesus, Deus desce ao encontro dos seus filhos vítimas da rejeição e da exclusão, compadece-Se da sua miséria, estende-lhes a mão com amor, liberta-os dos seus sofrimentos, convida-os a integrar a comunidade do “Reino”. Deus não pactua com a discriminação e denuncia como contrários aos seus projetos todos os mecanismos de opressão dos irmãos.
A liturgia fala-nos de um Deus cheio de amor, de bondade e de ternura, que Se faz pessoa e que desce ao encontro dos seus filhos, que lhes apresenta propostas de vida nova e que os convida a viver em comunhão com Ele e a integrar a sua família.
É um Deus que não exclui ninguém e que não aceita que, em seu nome, se inventem sistemas de discriminação ou de marginalização dos irmãos.
Às vezes há pessoas (quase sempre bem intencionadas) que inventam mecanismos de exclusão, de segregação, de sofrimento, em nome de um Deus severo, intolerante, distante, incapaz de compreender os limites e as fragilidades do homem. Trata-se de um atentado contra Deus.

O Deus que somos convidados a descobrir, a amar, a testemunhar no mundo, é o Deus de Jesus Cristo – isto é, esse Deus que vem ao encontro de cada homem, que Se compadece do seu sofrimento, que lhe estende a mão com ternura, que o purifica, que lhe oferece uma nova vida e que o integra na comunidade do “Reino” (nessa família onde todos têm lugar e onde todos são filhos amados de Deus).



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A FÉ COMO COMPROMISSO SOCIAL

O Livro de Job é um clássico da literatura universal. Além de uma extraordinária beleza literária, este livro apresenta algumas das grandes questões que o homem de todos os tempos coloca a si próprio: qual o sentido da vida? Qual a situação do homem diante de Deus? Qual o papel de Deus na vida e nos dramas do homem? Qual o sentido do sofrimento?
Para a catequese tradicional de Israel, a atitude de Deus em relação aos homens estava perfeitamente definida: Deus recompensava os bons pelas suas boas obras e os maus recebiam sempre um castigo exemplar pelas injustiças e arbitrariedades que praticavam. A justiça de Deus – realizada sempre nesta terra – era linear, previsível, lógica, imutável.
Deus é, de acordo com esta catequese, um Deus definido, previsível, que Se limita a fazer a contabilidade das ações boas e das ações más do homem e a pagar-lhe em consequência.
Na primeira leitura, um crente chamado Job comenta, com amargura e desilusão, o facto de a sua vida estar marcada por um sofrimento atroz e de Deus parecer ausente e indiferente face ao desespero em que a sua existência decorre… Apesar disso, é a Deus que Job se dirige, pois sabe que Deus é a sua única esperança e que fora d’Ele não há possibilidade de salvação.
Um dos sérios problemas que se punham aos cristãos de Corinto era o problema de comer ou não comer a carne imolada aos ídolos.
A segunda leitura sublinha, especialmente, a obrigação que os discípulos de Jesus assumiram no sentido de testemunhar diante de todos os homens a proposta libertadora de Jesus. Na sua Acão e no seu testemunho, os discípulos de Jesus não podem ser guiados por interesses pessoais, mas sim pelo amor a Deus, ao Evangelho e aos irmãos.
O Evangelho deste domingo situa-nos em Cafarnaum, uma cidade situada na margem norte do Lago de Tiberíades, na Galileia.
Estamos na primeira parte (cf. Mc 1,14-8,30) do Evangelho de Marcos. Aí, Jesus é apresentado pelo evangelista como o Messias que proclama essa realidade de um mundo novo – uma realidade que o próprio Jesus chama “Reino de Deus”.~
Marcos mostra a realidade do “Reino” a atuar no mundo como salvação e libertação, nas palavras e nos gestos de Jesus: com a autoridade que Lhe vem do Pai (cf. Mc 1,21-22) e em comunhão total com o Pai, Jesus vence o mal e a dor que escravizam o homem e anuncia um mundo novo de liberdade e de vida plena.
A atuação de Jesus no sentido de fazer aparecer o “Reino” é uma atuação que não se limita ao espaço da sinagoga (cf. Mc 1,21-28); estende-se, também, a outros ambientes e âmbitos, porque o “Reino de Deus” que Jesus veio propor dirige-se ao homem em todas as suas dimensões e situações.
No Evangelho manifesta-se a eterna preocupação de Deus com a felicidade dos seus filhos. Na Acão libertadora de Jesus em favor dos homens, começa a manifestar-se esse mundo novo sem sofrimento, sem opressão, sem exclusão que Deus sonhou para os homens. O texto sugere, ainda, que a Acão de Jesus tem de ser continuada pelos seus discípulos.
O projeto de Deus para os homens e para o mundo não é um projeto de morte, mas de vida; o objetivo de Deus é conduzir os homens ao encontro desse mundo novo (o “Reino de Deus”) de onde estão ausentes o sofrimento, a maldição e a exclusão, e onde cada pessoa tem acesso à vida verdadeira, à felicidade definitiva, à salvação. Talvez nem sempre entendamos o sentido do sofrimento que nos espera em cada esquina da vida; talvez nem sempre sejam claros, para nós, os caminhos por onde se desenrolam os projetos de Deus… Mas Jesus veio garantir-nos absolutamente o empenho de Deus na felicidade e na libertação do homem. Resta-nos confiar em Deus e entregarmo-nos ao seu amor.
O encontro com Jesus e com o “Reino” é sempre uma experiência libertadora. Aceitar o convite de Jesus para O seguir e para se tornar “discípulo” significa a rutura com as cadeias de egoísmo, de orgulho, de comodismo, de autossuficiências, de injustiça, de pecado que impedem a nossa felicidade e que geram sofrimento, opressão e morte nas nossas vidas e nas vidas dos nossos irmãos. Quem se encontra com Jesus, escuta e acolhe a sua mensagem e adere ao “Reino”, assume o compromisso de conduzir a sua vida pelos valores do Evangelho e passa a viver no amor, no perdão, na tolerância, no serviço aos irmãos. É – na perspetiva da catequese que o Evangelho de hoje nos apresenta – um “levantar-se”, um ressuscitar para a vida nova e eterna.

A história da sogra de Pedro que, depois do encontro com Jesus, “começou a servir” os que estavam na casa, lembra-nos que do encontro libertador com Jesus deve resultar o compromisso com a libertação dos nossos irmãos. Quem encontra Jesus e aceita inserir-se na dinâmica do “Reino”, compromete-se com a transformação do mundo… Compromete-se a realizar, em favor dos irmãos, os mesmos “milagres” de Jesus e a levar vida, paz e esperança aos doentes, aos marginalizados, aos oprimidos, aos injustiçados, aos perseguidos, aos que sofrem. Os meus gestos são sinais da vida de Deus (“milagres”) para os irmãos que caminham ao meu lado?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A fé vive-se no compromisso social


O Livro do Deuteronómio é o “livro da Lei” ou “livro da Aliança” descoberto no Templo de Jerusalém no ano 622 a.C.. A finalidade fundamental deste livro é levar o Povo de Deus a um compromisso firme e exigente com a Lei de Deus, proclamada no Sinai. É um convite firme ao Povo de Deus no sentido de abraçar a Aliança com Deus e de viver na fidelidade aos compromissos assumidos.
Apresenta-se como um conjunto de três discursos de Moisés, pronunciados nas planícies de Moab. Pressentindo a proximidade da sua morte, Moisés deixa ao Povo uma espécie de “testamento espiritual”: lembra aos hebreus os compromissos assumidos para com Deus e convida-os a renovar a sua aliança com Deus.
O texto que hoje nos é proposto apresenta-se como parte do segundo discurso de Moisés (cf. Dt 4,44-28,68).
Em concreto, o nosso texto refere-se ao papel e ao significado do profetismo. A primeira leitura propõe-nos – a partir da figura de Moisés – uma reflexão sobre a experiência profética. O profeta é alguém que Deus escolhe, que Deus chama e que Deus envia para ser a sua “palavra” viva no meio dos homens. Através dos profetas, Deus vem ao encontro dos homens e apresenta-lhes, de forma bem percetível, as suas propostas.
A segunda leitura convida os crentes a repensarem as suas prioridades e a não deixarem que as realidades transitórias sejam impeditivas de um verdadeiro compromisso com o serviço de Deus e dos irmãos.
A comunidade cristã de Corinto é uma comunidade tipicamente grega, que mergulha as suas raízes numa cultura-ambiente marcada por grandes contradições. Um dos sectores onde se nota, particularmente, esse balançar entre caminhos opostos, é nas questões de ética sexual. Neste âmbito, a cultura coríntia oscilava entre dois extremos: por um lado, um grande laxismo (como era normal numa cidade marítima, onde chegavam marinheiros de todo o mundo e onde reinava Afrodite, a deusa grega do amor); por outro lado, um desprezo absoluto pela sexualidade (típico de certas tendências filosóficas influenciadas pela filosofia platónica, que consideravam a matéria um mal e que faziam do não casar um ideal absoluto).
O desejo de Paulo é o de apresentar um caminho equilibrado, face a estes exageros: condenação sem apelo de todas as formas de desordem sexual, defesa do valor do casamento, elogio do celibato (cf. 1 Cor 7).
Rodeado já pelos primeiros discípulos, Jesus começa a revelar-Se como o Messias-libertador, que está no meio dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação. O texto que nos é hoje proposto aparece, exatamente, no princípio desta caminhada de encontro com o Messias e com o seu anúncio de salvação.
É um sábado. A comunidade está reunida na sinagoga de Cafarnaum é provável que Jesus tivesse sido convidado, nesse dia, para comentar as leituras feitas. Fê-lo de uma forma original, diferente dos comentários que as pessoas estavam habituadas a ouvir aos “escribas. As pessoas ficaram maravilhadas com as palavras de Jesus, “porque ensinava com autoridade e não como os escribas”.
Para Marcos, este primeiro episódio é uma espécie de apresentação de um programa de ação: Jesus veio ao encontro dos homens para os libertar de tudo aquilo que os faz prisioneiros e lhes rouba a vida. A libertação que Deus quer oferecer à humanidade está a acontecer.
O Evangelho mostra como Jesus, o Filho de Deus, cumprindo o projeto libertador do Pai, pela sua Palavra e pela sua ação, renova e transforma em homens livres todos aqueles que vivem prisioneiros do egoísmo, do pecado e da morte.
O “homem com um espírito impuro” representa todos os homens e mulheres, de todas as épocas, cujas vidas são controladas por esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de medo, de exploração, de exclusão, de injustiça, de ódio, de violência, de pecado.
É essa humanidade prisioneira de uma cultura de morte, que percorre um caminho à margem de Deus e das suas propostas, que aposta em valores efémeros e escravizantes ou que procura a vida em propostas falíveis ou efémeras. O Evangelho de hoje garante-nos, porém, que Deus não desistiu da humanidade, que Ele não Se conforma com o facto de os homens trilharem caminhos de escravidão, e que insiste em oferecer a todos a vida plena.
Ao egoísmo, a fé contrapõe a doação e a partilha; ao orgulho e à auto-suficiência, contrapõe o serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos; à exclusão, propõe a tolerância e a misericórdia; à injustiça, ao ódio, à violência, contrapõe o amor sem limites; ao medo, contrapõe a liberdade; à morte, contrapõe a vida.
O projeto de Deus, apresentado e oferecido aos homens nas palavras e ações de Jesus, é verdadeiramente um projeto transformador, capaz de renovar o mundo e de construir, desde já, uma nova terra de felicidade e de paz. É essa a Boa Nova que deve chegar a todos os homens e mulheres da terra.
Ser discípulo de Jesus é percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu e lutar, se necessário até ao dom total da vida, por um mundo mais humano, mais livre, mais solidário, mais justo, mais fraterno. Os seguidores de Jesus não podem ficar de braços cruzados, a olhar para o céu, enquanto o mundo é construído e dirigido por aqueles que propõem uma lógica de egoísmo e de morte; mas têm a grave responsabilidade de lutar, objetivamente, contra tudo aquilo que rouba a vida e a liberdade ao homem.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

III Domingo do Tempo Comum

Responder aos apelos de Deus

O “Livro de Jonas” foi, muito provavelmente, escrito na segunda metade do séc. V a.C. (talvez entre 440 e 410 a.C.).É uma história bonita e edificante, mas não é real. O livro de Jonas não é uma coleção de oráculos proféticos proferidos por um homem chamado Jonas, nem sequer um relato de carácter histórico; mas é uma obra de ficção, escrita com a finalidade de ensinar e educar.
Estamos numa época em que a política de Esdras e Neemias favorecia o nacionalismo, e o fechamento do Povo de Deus aos outros povos. Por um lado, sublinhava-se o facto de Judá ser o Povo Eleito de Deus, o povo preferido de Deus, um povo diferente de todos os outros; por outro, considerava-se que todos os outros povos eram inimigos de Deus, odiados por Deus, que deviam ser inapelavelmente condenados e destruídos por Deus.

Reagindo contra a ideologia dominante, o autor do “Livro de Jonas” apresenta o Senhor como um Deus universal, cuja bondade e misericórdia se estendem a todos os povos, sem exceção.
Deus ama todos os homens, sem exceção, e sobre todos quer derramar a sua bondade e a sua misericórdia. Mais: Deus ama mesmo os maus, os injustos e opressores e até a esses oferece a possibilidade de salvação. Deus não ama o pecado, mas ama os pecadores. Ele não quer a morte do pecador, mas que este se converta e viva.
A primeira leitura diz-nos que Deus ama todos os homens e a todos chama à salvação. A disponibilidade dos ninivitas em escutar os apelos de Deus e em percorrer um caminho imediato de conversão constitui um modelo de resposta adequada ao chamamento de Deus.

As duas Cartas aos Coríntios refletem a realidade de uma comunidade jovem, viva e entusiasta, mas com os seus problemas e dificuldades próprios… As suas luzes e sombras resultam, em parte, de ser uma comunidade que provém do mundo grego
Na comunidade cristã de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em se inserir num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.

O cristão vive mergulhado nas realidades terrenas, mas não vive para elas. Ele sabe que as realidades terrenas são passageiras e efémeras e não devem, em nenhum caso, ser absolutizadas. Para o cristão, o que é fundamental e deve ser posto em primeiro lugar, são as realidades eternas…
A segunda leitura convida o cristão a ter consciência de que “o tempo é breve” – isto é, que as realidades e valores deste mundo são passageiros e não devem ser absolutizados. Deus convida cada cristão, em marcha pela história, a viver de olhos postos no mundo futuro – quer dizer, a dar prioridade aos valores eternos, a converter-se aos valores do “Reino”.

A apresentação feita por Marcos do chamamento dos primeiros discípulos não parece ser uma descrição fotográfica de acontecimentos concretos, mas antes a definição de um modelo de toda a vocação cristã. Nesta catequese sobre a vocação, Marcos sugere que:
1º O chamamento a entrar na comunidade do Reino é sempre uma iniciativa de Jesus dirigida a homens concretos, “normais” (com um nome, com uma história de vida, com uma profissão, possivelmente com uma família).
2º Esse chamamento é sempre categórico, exigente e radical (Jesus não “prepara” previamente esse chamamento, não explica nada, não dá garantias nenhumas e nem sequer se volta para ver se os chamados responderam ou não ao seu desafio).
3º Esse chamamento não é para frequentar as aulas de um mestre qualquer, a fim de aprender e depois repetir uma doutrina qualquer; mas é um chamamento para aderir à pessoa de Jesus, para fazer com Ele uma experiência de vida, para aprender com Ele a ser uma pessoa nova que vive no amor a Deus e aos irmãos.
4º Esse chamamento exige uma resposta imediata, total e incondicional, que deve levar a subalternizar tudo o resto para seguir Jesus e para integrar a comunidade do Reino (Pedro, André, Tiago e João não exigem garantias, não pedem tempo para pensar, para medir os prós e os contras, para pôr em ordem os negócios, para se despedir do pai ou dos amigos, mas limitam-se a “deixar tudo” e a seguir Jesus).

O Evangelho deste domingo apresenta, portanto, o convite que Jesus faz a todos os homens no sentido de integrarem a comunidade do Reino; e apresenta também um modelo para a forma como os chamados devem escutar e acolher esse chamamento.

Quando contemplamos a realidade que nos rodeia, notamos a existência de sombras que desfeiam o mundo e criam, tantas vezes, angústia, desilusão, desespero e sofrimento na vida dos homens. Esse quadro não é, no entanto, uma realidade irremediável a que estamos para sempre condenados. Nos projetos de Deus, está um mundo diferente – um mundo de harmonia, de justiça, de reconciliação, de amor e de paz. A esse mundo novo, Jesus chamava o “Reino de Deus”. É esse projeto que Jesus nos apresenta e ao qual nos convida a aderir. Somos chamados a construir, com Jesus, um mundo onde Deus esteja presente e que se edifique de acordo com os projetos e os critérios de Deus. Estamos disponíveis para entrar nessa aventura?

Para que o “Reino de Deus” se torne uma realidade, o que é necessário fazer? Na perspetiva de Jesus, o “Reino de Deus” exige, antes de mais, a “conversão”. Temos de modificar a nossa mentalidade, os nossos valores, as nossas atitudes, a nossa forma de encarar Deus, o mundo e os outros para que se torne possível o nascimento de uma realidade diferente. Temos de alterar as nossas atitudes de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência, de comodismo e de voltar a escutar Deus e as suas propostas, para que aconteça, na nossa vida e à nossa volta, uma transformação radical – uma transformação no sentido do amor, da justiça e da paz.

De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, o “Reino de Deus” exige também o “acreditar” no Evangelho. “Acreditar” não é, na linguagem neotestamentária, a aceitação de certas afirmações teóricas ou a concordância com um conjunto de definições a propósito de Deus, de Jesus ou da Igreja; mas é, sobretudo, uma adesão total à pessoa de Jesus e ao seu projeto de vida. Com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e atitudes, Jesus propôs aos homens – a todos os homens – uma vida de amor total, de doação incondicional, de serviço simples e humilde, de perdão sem limites. O “discípulo” é alguém que está disposto a escutar o chamamento de Jesus, a acolher esse chamamento no coração e a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida.

• O chamamento a integrar a comunidade do “Reino” não é algo reservado a um grupo especial de pessoas, com uma missão especial no mundo e na Igreja; mas é algo que Deus dirige a cada homem e a cada mulher, sem exceção. Todos os batizados são chamados a ser discípulos de Jesus, a “converter-se”, a “acreditar no Evangelho”, a seguir Jesus nesse caminho de amor e de dom da vida. Esse chamamento é radical e incondicional: exige que o “Reino” se torne o valor fundamental, a prioridade, o principal objetivo do discípulo.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

II Domingo do Tempo Comum




Ser discípulo de Jesus

Os acontecimentos narrados na 1ª leitura abrangem um arco de tempo que vai de meados do séc. XI a.C. até ao final do reinado de David (972 a.C.) e dão-nos uma visão global do caminho feito pelo Povo de Deus desde que eram um conjunto de tribos autónomas e sem grande ligação entre si, até ao tempo da união à volta da realeza davídica.
Apresenta-nos a história do chamamento de Samuel. O autor desta reflexão deixa claro que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, o qual vem ao encontro do homem e chama-o pelo nome. Ao homem é pedido que se coloque numa atitude de total disponibilidade para escutar a voz e os desafios de Deus.
A primeira nota que é preciso sublinhar que a vocação é sempre uma iniciativa de Deus (“o Senhor chamou Samuel” – vers. 4a). É Deus que, seguindo critérios que nos escapam absolutamente mas que para Ele fazem sentido, escolhe, chama, interpela, desafia o homem.

Corinto, cidade nova e próspera, era a capital da Província romana da Acaia e a sede do procônsul romano. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: população de todas as raças e de todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Corinto a viverem de forma coerente com o chamamento que Deus lhes fez. No crente que vive em comunhão com Cristo deve manifestar-se sempre a vida nova de Deus. Aplicado ao domínio da vivência da sexualidade – um dos campos onde as falhas dos cristãos de Corinto eram mais notórias – isto significa que certas atitudes e hábitos desordenados devem ser totalmente banidos da vida do cristão.
A questão fundamental, para Paulo, é esta: pelo Baptismo, o cristão torna-se membro de Cristo e forma com ele um único corpo. A partir desse momento, os pensamentos, as palavras, as atitudes do cristão devem ser os de Cristo e devem testemunhar, diante do mundo, o próprio Cristo. No “corpo” do cristão manifesta-se, portanto, a realidade do “corpo” de Cristo.

O nosso texto apresenta-nos os primeiros três discípulos de Jesus: André, um outro discípulo não identificado e Simão Pedro. Os dois primeiros são apresentados como discípulos de João e é por indicação de João que seguem Jesus. Trata-se de um quadro de vocação que difere substancialmente dos relatos de chamamento dos primeiros discípulos apresentados pelos sinópticos (cf. Mt 4,18-22; Mc 1,16-20; Lc 5,1-11). Mais do que uma reportagem realista de acontecimentos concretos, o autor do Quarto Evangelho apresenta aqui um modelo de chamamento e de seguimento de Jesus.
A expressão “eis o cordeiro de Deus”, usada por João para apresentar Jesus, fará, provavelmente, referência ao “cordeiro pascal”, símbolo da libertação oferecida por Deus ao seu Povo, prisioneiro no Egipto (cf. Ex 12,3-14. 21-28). Esta expressão define Jesus como o enviado de Deus, que vem inaugurar a nova Páscoa e realizar a libertação definitiva dos homens. A missão de Jesus consiste, portanto, em eliminar as cadeias do egoísmo e do pecado que prendem os homens à escravidão e que os impedem de chegar à vida plena.
O Evangelho descreve o encontro de Jesus com os seus primeiros discípulos. Quem é “discípulo” de Jesus? Quem pode integrar a comunidade de Jesus? Na perspectiva de João, o discípulo é aquele que é capaz de reconhecer no Cristo que passa o Messias libertador, que está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e da entrega, que aceita o convite de Jesus para entrar na sua casa e para viver em comunhão com
Ele.
A identidade cristã não está na simples pertença jurídica a uma instituição chamada “Igreja”, nem na recepção de determinados sacramentos, nem na militância em certos movimentos eclesiais, nem na observância de certas regras de comportamento dito “cristão”… O cristão é, simplesmente, aquele que acolheu o chamamento de Deus para seguir Jesus Cristo.

O que é, em concreto, seguir Jesus? É ver n’Ele o Messias libertador com uma proposta de vida verdadeira e eterna, aceitar tornar-se seu discípulo, segui-l’O no caminho do amor, da entrega, da doação da vida, aceitar o desafio de entrar na sua casa e de viver em comunhão com Ele.

Essa adesão só pode ser radical e absoluta, sem meias tintas nem hesitações. Os dois primeiros discípulos não discutiram o “ordenado” que iam ganhar, se a aventura tinha futuro ou se estava condenada ao fracasso, se o abandono de um mestre para seguir outro representava uma promoção ou uma despromoção, se o que deixavam para trás era importante ou não era importante; simplesmente “seguiram Jesus”, sem garantias, sem condições, sem explicações supérfluas, sem “seguros de vida”, sem se preocuparem em salvaguardar o futuro se a aventura não desse certo. A aventura da vocação é sempre um salto, decidido e sereno, para os braços de Deus.


• A história da vocação de André e do outro discípulo (despertos por João Baptista para a presença do Messias) mostra, ainda, a importância do papel dos irmãos da nossa comunidade na nossa própria descoberta de Jesus. A comunidade ajuda-nos a tomar consciência desse Jesus que passa e aponta-nos o caminho do seguimento. Os desafios de Deus ecoam, tantas vezes, na nossa vida através dos irmãos que nos rodeiam, das suas indicações, da partilha que eles fazem connosco e que dispõe o nosso coração para reconhecer Jesus e para O seguir. É na escuta dos nossos irmãos que encontramos, tantas vezes, as propostas que o próprio Deus nos apresenta.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Batismo do Senhor ...



A primeira leitura anuncia um misterioso “Servo”, escolhido por Deus e enviado aos homens para instaurar um mundo de justiça e de paz sem fim… Investido do Espírito de Deus, ele concretizará essa missão com humildade e simplicidade, sem recorrer ao poder, à imposição, à prepotência, pois esses esquemas não são os de Deus.

O nosso texto tem duas partes; ambas afirmam – como se estivéssemos diante de dois movimentos concêntricos, que partem do mesmo lugar e terminam da mesma forma – a eleição do “Servo” e a sua missão. No entanto, a primeira desenvolve mais o aspeto do chamamento; a segunda define melhor a questão da missão.
Na primeira parte afirma-se que o “Servo” é um “eleito” de Deus, isto é, alguém que Deus se dignou “escolher” entre muitos, em vista de uma função ou missão. Estamos no contexto da “eleição”, isto é, no contexto em que Deus destaca alguém de entre muitos para o seu serviço.
A “ordenação” do “Servo” realiza-se através do dom do Espírito (“ruah”), que dará ao “Servo” o alento de Jahwéh, a capacidade para levar a cabo a missão: é o mesmo Espírito que Deus derrama sobre os chefes carismáticos do Povo de. Animado por esse Espírito, o “Servo” irá levar “a justiça às nações”: será uma missão de âmbito universal, que consistirá na implementação das decisões justas dos tribunais, base de uma ordem social consentânea com os esquemas e os projetos de Deus. A implementação dessa “nova ordem” não se dará com o recurso à força, à violência, ao espetáculo, mas com a bondade, a mansidão, a simplicidade que definem a lógica de Deus. Sobretudo, o “Servo” atuará com simplicidade, sem nada impor e sem desanimar perante as dificuldades da missão.
Na segunda parte , começa-se por afirmar que o “Servo” foi “chamado” pelo Senhor e, imediatamente, passa-se à finalidade desse chamamento: instaurar “a justiça”– isto é, a missão do “Servo” é o estabelecimento de uma reta ordem social. Explicitando melhor a missão do “Servo”, Deus convida-o a ser “a luz das nações” e, em concreto, a abrir os olhos aos cegos, a tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas. É, portanto, uma missão de libertação e de salvação.
Nas duas partes fica claro que o “Servo” é um instrumento através do qual Deus atua no mundo para levar a salvação aos homens: Ele é alguém que Deus escolheu entre muitos, a quem chamou e a quem confiou uma missão – trazer a justiça, propor a todas as nações uma nova ordem social da qual desaparecerão as trevas que alienam e impedem de caminhar e oferecer a todos os homens a liberdade e a paz. Deus não só está na origem (escolha, chamamento e envio) da missão do “Servo”, mas acompanhará a concretização da missão e possibilitará o seu êxito: para levar a cabo a missão, o “Servo” contará com a ajuda do Espírito de Deus, que lhe dará a força de assumir a missão e de concretizá-la.
A segunda leitura reafirma que Jesus é o Filho amado que o Pai enviou ao mundo para concretizar um projeto de salvação; por isso, Ele “passou pelo mundo fazendo o bem” e libertando todos os que eram oprimidos. É este o testemunho que os discípulos devem dar, para que a salvação que Deus oferece chegue a todos os povos da terra.
No seu discurso, Pedro começa por reconhecer que a proposta de salvação oferecida por Deus e trazida por Cristo é universal e se destina a todas as pessoas, sem distinção de qualquer tipo. Israel foi, na verdade, o primeiro recetor privilegiado da Palavra de Deus; mas Cristo veio trazer a “boa nova da paz” (salvação) a todos os homens; e agora, por intermédio das testemunhas de Jesus, essa proposta de salvação que o Pai faz chegar “a qualquer nação que o teme e põe em prática a justiça” – ou seja, a todo o homem e mulher, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, que aceita a proposta e adere a Jesus.
Depois de definir os contornos universais da proposta salvadora de Deus, Pedro apresenta uma espécie de resumo da fé primitiva. É, nem mais nem menos, do que o pôr em ato a missão fundamental dos discípulos: anunciar Jesus e testemunhar essa salvação que deve chegar a todos os homens. A leitura que nos é proposta conserva apenas a parte inicial do “kerigma” primitivo e resume a atividade de Jesus que “passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele”. No entanto, o anúncio de Pedro continua (embora a nossa leitura de hoje não o refira) com a catequese sobre a morte, sobre a ressurreição (vers. 40) e sobre a dimensão salvífica da vida de Jesus.
No Evangelho, aparece-nos a concretização da promessa profética: Jesus é o Filho/”Servo” enviado pelo Pai, sobre quem repousa o Espírito e cuja missão é realizar a libertação dos homens. Obedecendo ao Pai, Ele tornou-Se pessoa, identificou-Se com as fragilidades dos homens, caminhou ao lado deles, a fim de os promover e de os levar à reconciliação com Deus, à vida em plenitude.


O Evangelho deste domingo apresenta o encontro entre Jesus e João Baptista, nas margens do rio Jordão. Na circunstância, Jesus foi batizado por João.
João Baptista foi o guia carismático de um movimento de cariz popular, que anunciava a proximidade do “juízo de Deus”. A sua mensagem estava centrada na urgência da conversão (pois, na opinião de João, a intervenção definitiva de Deus na história para destruir o mal estava iminente) e incluía um rito de purificação pela água.
O “batismo” proposto por João não era, na verdade, uma novidade insólita. O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de vida. Era, inclusive, um rito usado na integração dos “prosélitos” (os pagãos que aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus.
Na perspetiva de João, provavelmente, este “batismo” é um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava este “batismo”, renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a comunidade do Messias.
O que é que Jesus tem a ver com isto? Que sentido faz Ele apresentar-Se a João para receber este “batismo” de purificação, de arrependimento e de perdão dos pecados?
O texto que hoje nos é proposto faz parte de um conjunto de três cenas nas quais Marcos apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus. Nesse tríptico, fica desde logo definida a missão específica e a verdadeira identidade de Jesus. Estas indicações iniciais irão depois ser desenvolvidas e completadas ao longo do Evangelho.
Porque é que Jesus quis ser batizado por João? Jesus necessitava de um batismo cujo significado primordial estava ligado à penitência, ao perdão dos pecados e à mudança de vida? Ao receber este batismo de penitência e de perdão dos pecados (do qual não precisava, porque Ele não conheceu o pecado), Jesus solidarizou-Se com o homem limitado e pecador, assumiu a sua condição, colocou-Se ao lado dos homens para os ajudar a sair dessa situação e para percorrer com eles o caminho da libertação, o caminho da vida plena. Esse era o projeto do Pai, que Jesus cumpriu integralmente.
A cena do batismo de Jesus revela portanto, essencialmente, que Jesus é o Filho de Deus, que o Pai envia ao mundo a fim de cumprir um projeto de libertação em favor dos homens. Como verdadeiro Filho, Ele obedece ao Pai e cumpre o plano salvador do Pai; por isso, vem ao encontro dos homens, solidariza-Se com eles, assume as suas fragilidades, caminha com eles, refaz a comunhão entre Deus e os homens que o pecado havia interrompido e conduz os homens ao encontro da vida em plenitude. Da atividade de Jesus, o Filho de Deus que cumpre a vontade do Pai, resultará uma nova criação, uma nova humanidade.