Responder aos apelos de Deus
O “Livro de Jonas” foi, muito
provavelmente, escrito na segunda metade do séc. V a.C. (talvez entre 440 e 410
a.C.).É uma história bonita e edificante, mas não é real. O livro de Jonas não
é uma coleção de oráculos proféticos proferidos por um homem chamado Jonas, nem
sequer um relato de carácter histórico; mas é uma obra de ficção, escrita com a
finalidade de ensinar e educar.
Estamos numa época em que a política de
Esdras e Neemias favorecia o nacionalismo, e o fechamento do Povo de Deus aos
outros povos. Por um lado, sublinhava-se o facto de Judá ser o Povo Eleito de
Deus, o povo preferido de Deus, um povo diferente de todos os outros; por
outro, considerava-se que todos os outros povos eram inimigos de Deus, odiados
por Deus, que deviam ser inapelavelmente condenados e destruídos por Deus.
Reagindo contra a ideologia dominante, o
autor do “Livro de Jonas” apresenta o Senhor como um Deus universal, cuja
bondade e misericórdia se estendem a todos os povos, sem exceção.
Deus ama todos os homens, sem exceção, e
sobre todos quer derramar a sua bondade e a sua misericórdia. Mais: Deus ama
mesmo os maus, os injustos e opressores e até a esses oferece a possibilidade
de salvação. Deus não ama o pecado, mas ama os pecadores. Ele não quer a morte
do pecador, mas que este se converta e viva.
A primeira leitura diz-nos que Deus ama
todos os homens e a todos chama à salvação. A disponibilidade dos ninivitas em
escutar os apelos de Deus e em percorrer um caminho imediato de conversão
constitui um modelo de resposta adequada ao chamamento de Deus.
As duas Cartas aos Coríntios refletem a
realidade de uma comunidade jovem, viva e entusiasta, mas com os seus problemas
e dificuldades próprios… As suas luzes e sombras resultam, em parte, de ser uma
comunidade que provém do mundo grego
Na comunidade cristã de Corinto, vemos
as dificuldades da fé cristã em se inserir num ambiente hostil, marcado por uma
cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com
a pureza da mensagem evangélica.
O cristão vive mergulhado nas realidades
terrenas, mas não vive para elas. Ele sabe que as realidades terrenas são
passageiras e efémeras e não devem, em nenhum caso, ser absolutizadas. Para o
cristão, o que é fundamental e deve ser posto em primeiro lugar, são as
realidades eternas…
A segunda leitura convida o cristão a
ter consciência de que “o tempo é breve” – isto é, que as realidades e valores
deste mundo são passageiros e não devem ser absolutizados. Deus convida cada
cristão, em marcha pela história, a viver de olhos postos no mundo futuro –
quer dizer, a dar prioridade aos valores eternos, a converter-se aos valores do
“Reino”.
A apresentação feita por Marcos do
chamamento dos primeiros discípulos não parece ser uma descrição fotográfica de
acontecimentos concretos, mas antes a definição de um modelo de toda a vocação
cristã. Nesta catequese sobre a vocação, Marcos sugere que:
1º O chamamento a entrar na comunidade
do Reino é sempre uma iniciativa de Jesus dirigida a homens concretos,
“normais” (com um nome, com uma história de vida, com uma profissão,
possivelmente com uma família).
2º Esse chamamento é sempre categórico,
exigente e radical (Jesus não “prepara” previamente esse chamamento, não
explica nada, não dá garantias nenhumas e nem sequer se volta para ver se os
chamados responderam ou não ao seu desafio).
3º Esse chamamento não é para frequentar
as aulas de um mestre qualquer, a fim de aprender e depois repetir uma doutrina
qualquer; mas é um chamamento para aderir à pessoa de Jesus, para fazer com Ele
uma experiência de vida, para aprender com Ele a ser uma pessoa nova que vive
no amor a Deus e aos irmãos.
4º Esse chamamento exige uma resposta
imediata, total e incondicional, que deve levar a subalternizar tudo o resto
para seguir Jesus e para integrar a comunidade do Reino (Pedro, André, Tiago e
João não exigem garantias, não pedem tempo para pensar, para medir os prós e os
contras, para pôr em ordem os negócios, para se despedir do pai ou dos amigos,
mas limitam-se a “deixar tudo” e a seguir Jesus).
O Evangelho deste domingo apresenta,
portanto, o convite que Jesus faz a todos os homens no sentido de integrarem a
comunidade do Reino; e apresenta também um modelo para a forma como os chamados
devem escutar e acolher esse chamamento.
Quando contemplamos a realidade que nos
rodeia, notamos a existência de sombras que desfeiam o mundo e criam, tantas
vezes, angústia, desilusão, desespero e sofrimento na vida dos homens. Esse
quadro não é, no entanto, uma realidade irremediável a que estamos para sempre
condenados. Nos projetos de Deus, está um mundo diferente – um mundo de
harmonia, de justiça, de reconciliação, de amor e de paz. A esse mundo novo,
Jesus chamava o “Reino de Deus”. É esse projeto que Jesus nos apresenta e ao
qual nos convida a aderir. Somos chamados a construir, com Jesus, um mundo onde
Deus esteja presente e que se edifique de acordo com os projetos e os critérios
de Deus. Estamos disponíveis para entrar nessa aventura?
Para que o “Reino de Deus” se torne uma
realidade, o que é necessário fazer? Na perspetiva de Jesus, o “Reino de Deus”
exige, antes de mais, a “conversão”. Temos de modificar a nossa mentalidade, os
nossos valores, as nossas atitudes, a nossa forma de encarar Deus, o mundo e os
outros para que se torne possível o nascimento de uma realidade diferente.
Temos de alterar as nossas atitudes de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência,
de comodismo e de voltar a escutar Deus e as suas propostas, para que aconteça,
na nossa vida e à nossa volta, uma transformação radical – uma transformação no
sentido do amor, da justiça e da paz.
De acordo com a Palavra de Deus que nos
é proposta, o “Reino de Deus” exige também o “acreditar” no Evangelho.
“Acreditar” não é, na linguagem neotestamentária, a aceitação de certas
afirmações teóricas ou a concordância com um conjunto de definições a propósito
de Deus, de Jesus ou da Igreja; mas é, sobretudo, uma adesão total à pessoa de
Jesus e ao seu projeto de vida. Com a sua pessoa, com as suas palavras, com os
seus gestos e atitudes, Jesus propôs aos homens – a todos os homens – uma vida
de amor total, de doação incondicional, de serviço simples e humilde, de perdão
sem limites. O “discípulo” é alguém que está disposto a escutar o chamamento de
Jesus, a acolher esse chamamento no coração e a seguir Jesus no caminho do amor
e do dom da vida.
• O chamamento a integrar a comunidade
do “Reino” não é algo reservado a um grupo especial de pessoas, com uma missão
especial no mundo e na Igreja; mas é algo que Deus dirige a cada homem e a cada
mulher, sem exceção. Todos os batizados são chamados a ser discípulos de Jesus,
a “converter-se”, a “acreditar no Evangelho”, a seguir Jesus nesse caminho de
amor e de dom da vida. Esse chamamento é radical e incondicional: exige que o
“Reino” se torne o valor fundamental, a prioridade, o principal objetivo do discípulo.

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