
A primeira leitura anuncia um misterioso “Servo”, escolhido por Deus e enviado aos homens para instaurar um mundo de justiça e de paz sem fim… Investido do Espírito de Deus, ele concretizará essa missão com humildade e simplicidade, sem recorrer ao poder, à imposição, à prepotência, pois esses esquemas não são os de Deus.
O nosso texto tem duas partes;
ambas afirmam – como se estivéssemos diante de dois movimentos concêntricos,
que partem do mesmo lugar e terminam da mesma forma – a eleição do “Servo” e a
sua missão. No entanto, a primeira desenvolve mais o aspeto do chamamento; a
segunda define melhor a questão da missão.
Na primeira parte afirma-se
que o “Servo” é um “eleito” de Deus, isto é, alguém que Deus se dignou
“escolher” entre muitos, em vista de uma função ou missão. Estamos no contexto
da “eleição”, isto é, no contexto em que Deus destaca alguém de entre muitos
para o seu serviço.
A “ordenação” do “Servo”
realiza-se através do dom do Espírito (“ruah”), que dará ao “Servo” o alento de
Jahwéh, a capacidade para levar a cabo a missão: é o mesmo Espírito que Deus
derrama sobre os chefes carismáticos do Povo de. Animado por esse Espírito, o
“Servo” irá levar “a justiça às nações”: será uma missão de âmbito universal,
que consistirá na implementação das decisões justas dos tribunais, base de uma
ordem social consentânea com os esquemas e os projetos de Deus. A implementação
dessa “nova ordem” não se dará com o recurso à força, à violência, ao
espetáculo, mas com a bondade, a mansidão, a simplicidade que definem a lógica
de Deus. Sobretudo, o “Servo” atuará com simplicidade, sem nada impor e sem
desanimar perante as dificuldades da missão.
Na segunda parte , começa-se
por afirmar que o “Servo” foi “chamado” pelo Senhor e, imediatamente, passa-se
à finalidade desse chamamento: instaurar “a justiça”– isto é, a missão do
“Servo” é o estabelecimento de uma reta ordem social. Explicitando melhor a
missão do “Servo”, Deus convida-o a ser “a luz das nações” e, em concreto, a
abrir os olhos aos cegos, a tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que
habitam nas trevas. É, portanto, uma missão de libertação e de salvação.
Nas duas partes fica claro que
o “Servo” é um instrumento através do qual Deus atua no mundo para levar a
salvação aos homens: Ele é alguém que Deus escolheu entre muitos, a quem chamou
e a quem confiou uma missão – trazer a justiça, propor a todas as nações uma
nova ordem social da qual desaparecerão as trevas que alienam e impedem de
caminhar e oferecer a todos os homens a liberdade e a paz. Deus não só está na
origem (escolha, chamamento e envio) da missão do “Servo”, mas acompanhará a
concretização da missão e possibilitará o seu êxito: para levar a cabo a
missão, o “Servo” contará com a ajuda do Espírito de Deus, que lhe dará a força
de assumir a missão e de concretizá-la.
A segunda leitura reafirma que
Jesus é o Filho amado que o Pai enviou ao mundo para concretizar um projeto de
salvação; por isso, Ele “passou pelo mundo fazendo o bem” e libertando todos os
que eram oprimidos. É este o testemunho que os discípulos devem dar, para que a
salvação que Deus oferece chegue a todos os povos da terra.
No seu discurso, Pedro começa
por reconhecer que a proposta de salvação oferecida por Deus e trazida por
Cristo é universal e se destina a todas as pessoas, sem distinção de qualquer
tipo. Israel foi, na verdade, o primeiro recetor privilegiado da Palavra de
Deus; mas Cristo veio trazer a “boa nova da paz” (salvação) a todos os homens;
e agora, por intermédio das testemunhas de Jesus, essa proposta de salvação que
o Pai faz chegar “a qualquer nação que o teme e põe em prática a justiça” – ou
seja, a todo o homem e mulher, sem distinção de raça, de cor, de estatuto
social, que aceita a proposta e adere a Jesus.
Depois de definir os contornos
universais da proposta salvadora de Deus, Pedro apresenta uma espécie de resumo
da fé primitiva. É, nem mais nem menos, do que o pôr em ato a missão
fundamental dos discípulos: anunciar Jesus e testemunhar essa salvação que deve
chegar a todos os homens. A leitura que nos é proposta conserva apenas a parte
inicial do “kerigma” primitivo e resume a atividade de Jesus que “passou pelo
mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque
Deus estava com Ele”. No entanto, o anúncio de Pedro continua (embora a nossa
leitura de hoje não o refira) com a catequese sobre a morte, sobre a
ressurreição (vers. 40) e sobre a dimensão salvífica da vida de Jesus.
No Evangelho, aparece-nos a
concretização da promessa profética: Jesus é o Filho/”Servo” enviado pelo Pai,
sobre quem repousa o Espírito e cuja missão é realizar a libertação dos homens.
Obedecendo ao Pai, Ele tornou-Se pessoa, identificou-Se com as fragilidades dos
homens, caminhou ao lado deles, a fim de os promover e de os levar à
reconciliação com Deus, à vida em plenitude.
O Evangelho deste domingo
apresenta o encontro entre Jesus e João Baptista, nas margens do rio Jordão. Na
circunstância, Jesus foi batizado por João.
João Baptista foi o guia
carismático de um movimento de cariz popular, que anunciava a proximidade do
“juízo de Deus”. A sua mensagem estava centrada na urgência da conversão (pois,
na opinião de João, a intervenção definitiva de Deus na história para destruir
o mal estava iminente) e incluía um rito de purificação pela água.
O “batismo” proposto por João
não era, na verdade, uma novidade insólita. O judaísmo conhecia ritos diversos
de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de
vida. Era, inclusive, um rito usado na integração dos “prosélitos” (os pagãos
que aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus.
Na perspetiva de João,
provavelmente, este “batismo” é um rito de iniciação à comunidade messiânica:
quem aceitava este “batismo”, renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida
nova e passava a integrar a comunidade do Messias.
O que é que Jesus tem a ver
com isto? Que sentido faz Ele apresentar-Se a João para receber este “batismo”
de purificação, de arrependimento e de perdão dos pecados?
O texto que hoje nos é
proposto faz parte de um conjunto de três cenas nas quais Marcos apresenta
Jesus como o Messias, Filho de Deus. Nesse tríptico, fica desde logo definida a
missão específica e a verdadeira identidade de Jesus. Estas indicações iniciais
irão depois ser desenvolvidas e completadas ao longo do Evangelho.
Porque é que Jesus quis ser
batizado por João? Jesus necessitava de um batismo cujo significado primordial
estava ligado à penitência, ao perdão dos pecados e à mudança de vida? Ao
receber este batismo de penitência e de perdão dos pecados (do qual não
precisava, porque Ele não conheceu o pecado), Jesus solidarizou-Se com o homem
limitado e pecador, assumiu a sua condição, colocou-Se ao lado dos homens para
os ajudar a sair dessa situação e para percorrer com eles o caminho da
libertação, o caminho da vida plena. Esse era o projeto do Pai, que Jesus
cumpriu integralmente.
A cena do batismo de Jesus
revela portanto, essencialmente, que Jesus é o Filho de Deus, que o Pai envia
ao mundo a fim de cumprir um projeto de libertação em favor dos homens. Como
verdadeiro Filho, Ele obedece ao Pai e cumpre o plano salvador do Pai; por
isso, vem ao encontro dos homens, solidariza-Se com eles, assume as suas
fragilidades, caminha com eles, refaz a comunhão entre Deus e os homens que o
pecado havia interrompido e conduz os homens ao encontro da vida em plenitude.
Da atividade de Jesus, o Filho de Deus que cumpre a vontade do Pai, resultará
uma nova criação, uma nova humanidade.
Sem comentários:
Enviar um comentário