Ser discípulo
de Jesus
Os acontecimentos narrados na 1ª leitura abrangem um arco de tempo que
vai de meados do séc. XI a.C. até ao final do reinado de David (972 a.C.) e
dão-nos uma visão global do caminho feito pelo Povo de Deus desde que eram um
conjunto de tribos autónomas e sem grande ligação entre si, até ao tempo da
união à volta da realeza davídica.
Apresenta-nos a história do chamamento de Samuel. O autor desta
reflexão deixa claro que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, o qual
vem ao encontro do homem e chama-o pelo nome. Ao homem é pedido que se coloque
numa atitude de total disponibilidade para escutar a voz e os desafios de Deus.
A primeira nota que é preciso sublinhar que a vocação é sempre uma
iniciativa de Deus (“o Senhor chamou Samuel” – vers. 4a). É Deus que, seguindo
critérios que nos escapam absolutamente mas que para Ele fazem sentido,
escolhe, chama, interpela, desafia o homem.
Corinto, cidade nova e próspera, era a capital da Província romana da
Acaia e a sede do procônsul romano. Servida por dois portos de mar, possuía as
características típicas das cidades marítimas: população de todas as raças e de
todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que
cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de
Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram
escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Corinto a viverem de
forma coerente com o chamamento que Deus lhes fez. No crente que vive em
comunhão com Cristo deve manifestar-se sempre a vida nova de Deus. Aplicado ao
domínio da vivência da sexualidade – um dos campos onde as falhas dos cristãos
de Corinto eram mais notórias – isto significa que certas atitudes e hábitos desordenados
devem ser totalmente banidos da vida do cristão.
A questão fundamental, para Paulo, é esta: pelo Baptismo, o cristão
torna-se membro de Cristo e forma com ele um único corpo. A partir desse
momento, os pensamentos, as palavras, as atitudes do cristão devem ser os de
Cristo e devem testemunhar, diante do mundo, o próprio Cristo. No “corpo” do
cristão manifesta-se, portanto, a realidade do “corpo” de Cristo.
O nosso texto apresenta-nos os primeiros três discípulos de Jesus:
André, um outro discípulo não identificado e Simão Pedro. Os dois primeiros são
apresentados como discípulos de João e é por indicação de João que seguem
Jesus. Trata-se de um quadro de vocação que difere substancialmente dos relatos
de chamamento dos primeiros discípulos apresentados pelos sinópticos (cf. Mt
4,18-22; Mc 1,16-20; Lc 5,1-11). Mais do que uma reportagem realista de
acontecimentos concretos, o autor do Quarto Evangelho apresenta aqui um modelo
de chamamento e de seguimento de Jesus.
A expressão “eis o cordeiro de Deus”, usada por João para apresentar
Jesus, fará, provavelmente, referência ao “cordeiro pascal”, símbolo da
libertação oferecida por Deus ao seu Povo, prisioneiro no Egipto (cf. Ex
12,3-14. 21-28). Esta expressão define Jesus como o enviado de Deus, que vem inaugurar
a nova Páscoa e realizar a libertação definitiva dos homens. A missão de Jesus
consiste, portanto, em eliminar as cadeias do egoísmo e do pecado que prendem
os homens à escravidão e que os impedem de chegar à vida plena.
O Evangelho descreve o encontro de Jesus com os seus primeiros
discípulos. Quem é “discípulo” de Jesus? Quem pode integrar a comunidade de
Jesus? Na perspectiva de João, o discípulo é aquele que é capaz de reconhecer
no Cristo que passa o Messias libertador, que está disponível para seguir Jesus
no caminho do amor e da entrega, que aceita o convite de Jesus para entrar na
sua casa e para viver em comunhão com
Ele.
A identidade cristã não está na simples pertença jurídica a uma
instituição chamada “Igreja”, nem na recepção de determinados sacramentos, nem
na militância em certos movimentos eclesiais, nem na observância de certas
regras de comportamento dito “cristão”… O cristão é, simplesmente, aquele que
acolheu o chamamento de Deus para seguir Jesus Cristo.
O que é, em concreto, seguir Jesus? É ver n’Ele o Messias libertador
com uma proposta de vida verdadeira e eterna, aceitar tornar-se seu discípulo,
segui-l’O no caminho do amor, da entrega, da doação da vida, aceitar o desafio
de entrar na sua casa e de viver em comunhão com Ele.
Essa adesão só pode ser radical e absoluta, sem meias tintas nem
hesitações. Os dois primeiros discípulos não discutiram o “ordenado” que iam
ganhar, se a aventura tinha futuro ou se estava condenada ao fracasso, se o
abandono de um mestre para seguir outro representava uma promoção ou uma
despromoção, se o que deixavam para trás era importante ou não era importante;
simplesmente “seguiram Jesus”, sem garantias, sem condições, sem explicações
supérfluas, sem “seguros de vida”, sem se preocuparem em salvaguardar o futuro
se a aventura não desse certo. A aventura da vocação é sempre um salto,
decidido e sereno, para os braços de Deus.
• A história da vocação de André e do outro discípulo (despertos por
João Baptista para a presença do Messias) mostra, ainda, a importância do papel
dos irmãos da nossa comunidade na nossa própria descoberta de Jesus. A
comunidade ajuda-nos a tomar consciência desse Jesus que passa e aponta-nos o
caminho do seguimento. Os desafios de Deus ecoam, tantas vezes, na nossa vida através
dos irmãos que nos rodeiam, das suas indicações, da partilha que eles fazem
connosco e que dispõe o nosso coração para reconhecer Jesus e para O seguir. É
na escuta dos nossos irmãos que encontramos, tantas vezes, as propostas que o
próprio Deus nos apresenta.

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