Na primeira
leitura, Deus oferece-nos um conjunto de indicações que devem balizar a nossa
caminhada pela vida. São leis e normas que abarcam os dois vetores
fundamentais da existência humana: a relação do homem com Deus e a relação que
cada homem estabelece com o seu próximo.
O que está em jogo
não é o respeitar regras “religiosamente corretas”, o evitar que Deus tenha
razões de queixa contra nós, ou o fugir aos castigos divinos; mas é, antes de
mais, o construir a nossa própria felicidade.
Na segunda
leitura, o apóstolo Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus… É preciso
que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está
numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está na
lógica da cruz – isto é, no amor total, no dom da vida até às últimas
consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.
Judeus e gregos,
cada um à sua maneira, buscam seguranças. Os judeus procuram milagres que
garantam a veracidade da mensagem anunciada; os gregos procuram as belas
palavras, a coerência do discurso, a lógica dos argumentos…
A essência da
mensagem cristã está na “loucura da cruz” – isto é, na lógica ilógica de um Deus
que veio ao encontro da humanidade, que fez da sua vida um dom de amor e que
aceitou uma morte maldita para ensinar aos homens que a verdadeira vida é
aquela que se coloca integralmente ao serviço dos irmãos, até à morte.
O caminho cristão
não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o
Cristo do amor e do dom da vida. Nele manifesta-se de forma humanamente
desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus.
No Evangelho,
Jesus apresenta-Se como o “Novo Templo” onde Deus Se revela aos homens e lhes
oferece o seu amor. Convida-nos a olhar para Jesus e a descobrir nas suas
indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que
Deus nos quer apresentar.
Quando Jesus pega
no chicote de cordas, expulsa do Templo os vendedores de ovelhas, de bois e de
pombas, deita por terra os trocos dos banqueiros e derruba as mesas dos
cambistas (vers. 14-16), está a revelar-Se como “o messias” e a anunciar que
chegaram os novos tempos, os tempos messiânicos.
Jesus apresenta-se
como o “novo Templo”. O Templo representava, no universo religioso judaico, a
residência de Deus, o lugar onde Deus Se revelava e onde Se tornava presente no
meio do seu Povo. Jesus é, agora, o lugar onde Deus reside, onde Se encontra
com os homens e onde Se manifesta ao mundo.
É através de Jesus
que o Pai oferece aos homens o seu amor e a sua vida. Aquilo que a antiga Lei
já não conseguia fazer – estabelecer relação entre Deus e os homens – é Jesus
que, a partir de agora, o faz.
Membros do Corpo
de Cristo, os cristãos são pedras vivas desse novo Templo onde Deus Se
manifesta ao mundo e vem ao encontro dos homens para lhes oferecer a vida e a
salvação.
Esta realidade
supõe naturalmente, para os crentes, uma grande responsabilidade… Os homens do
nosso tempo têm de ver no rosto dos cristãos o rosto bondoso e terno de Deus;
têm de experimentar, nos gestos de partilha, de solidariedade, de serviço, de
perdão dos cristãos, a vida nova de Deus; têm de encontrar, na preocupação dos
cristãos com a justiça e com a paz, o anúncio desse mundo novo que Deus quer
oferecer a todos os homens. Talvez o facto de Deus parecer tão ausente da vida,
das preocupações e dos valores dos homens do nosso tempo tenha a ver com o
facto de os discípulos de Jesus se demitirem da sua missão e da sua
responsabilidade…
Evidentemente, não
são os ritos solenes e pomposos, mas vazios, estéreis e balofos. O culto que
Deus aprecia é uma vida vivida na escuta das suas propostas e traduzida em
gestos concretos de doação, de entrega, de serviço simples e humilde aos
irmãos. Quando somos capazes de sair do nosso comodismo e da nossa
autossuficiência para ir ao encontro do pobre, do marginalizado, do
estrangeiro, do doente, estamos a dar a resposta “litúrgica” adequada ao amor e
à generosidade de Deus para connosco.
Ao gesto profético
de Jesus, os líderes judaicos respondem com incompreensão e arrogância.
Consideram-se os donos da verdade e os únicos intérpretes autênticos da vontade
divina. Instalados nas suas certezas e preconceitos, nem sequer admitem que a
denúncia que Jesus faz esteja correta. A sua autossuficiência impede-os de ver
para além dos seus projetos pessoais e de descobrir os projetos de Deus.
Trata-se de uma atitude que, mais uma vez, nos questiona… Quando nos barricamos
atrás de certezas absolutas e de atitudes intransigentes, podemos estar a
fechar o nosso coração aos desafios e à novidade de Deus.
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