No segundo Domingo
da Quaresma, a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve
seguir para chegar à vida nova: é o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus
projetos, o caminho da obediência total e radical aos planos do Pai.
O relato da
Transfiguração de Jesus ensina-nos que Deus não deixa sem recompensa os que
seguem esse caminho.
O relato da
primeira leitura é uma autêntica catequese. Nesta “catequese”, a intenção
fundamental do autor não é dizer-nos quem é Deus e como é que Ele age (por
isso, não adianta estarmos a “perguntar” ao texto se, na realidade, os métodos
de Deus passam por submeter o homem a provas desumanas a fim de o “testar”). A
história do sacrifício de Isaac destina-se, sobretudo, a propor-nos a atitude
que o crente deve assumir diante de Deus. Abraão é apresentado como o protótipo
do crente ideal, que sabe escutar Deus e acolher os seus projetos com
obediência incondicional, com confiança total… Mesmo que as propostas de Deus
resultem incompreensíveis ou que os desafios de Deus interfiram com os projetos
do homem, o crente ideal deve acolher os planos de Deus e realizá-los com
fidelidade. Foi para deixar esta lição aos seus concidadãos – lição que serve,
naturalmente, para os crentes de todos os tempos – que os teólogos foram buscar
esta velha lenda.
A segunda leitura
lembra aos crentes que Deus os ama com um amor imenso e eterno. A melhor prova
desse amor é Jesus Cristo, o Filho amado de Deus que morreu para ensinar ao
homem o caminho da vida verdadeira. Sendo assim, o cristão nada tem a temer e
deve enfrentar a vida com serenidade e esperança.
A razão para a
esperança dos cristãos está na certeza que Deus ama todos os seus filhos com um
amor imenso e eterno. O envio ao mundo de Jesus Cristo, o Filho único de Deus,
que nos ensinou o caminho da vida plena e da felicidade sem fim, que lutou até
à morte contra tudo o que oprimia e escravizava o homem, é a “prova provada” do
imenso amor de Deus por nós (vers. 32).
Ora, se Deus nos
ama dessa forma tão intensa e tão total, nada nem ninguém nos pode acusar,
condenar, destruir ou fazer mal. É Deus “quem nos justifica” (vers. 33) – quer
dizer, é Deus que, na sua imensa bondade, pronuncia sobre nós um veredicto de
graça e de perdão, apesar das nossas faltas e infidelidades. Ninguém nos
condena pois o próprio Deus (o único que o poderia fazer) escolheu salvar-nos,
mesmo que o não merecêssemos.
Sendo assim, o
cristão deve enfrentar a vida com serenidade e esperança, confiando totalmente
no amor de Deus.
O Evangelho relata
a transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo
Testamento, o autor apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de
Deus, que vai concretizar o seu projeto libertador em favor dos homens através
do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho
do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o,
vós também.
Depois de terem
ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem constatado aquilo que Jesus pede
aos que O querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados, pois a
aventura em que apostaram parece encaminhar-se para um rotundo fracasso; eles
vêem esfumar-se – nessa cruz que irá ser plantada numa colina de Jerusalém – os
seus sonhos de glória, de honras, de triunfos e perguntam-se se vale a pena
seguir um mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte na cruz.
É neste contexto
que Marcos coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de
ânimo para os discípulos (e para os crentes, em geral), pois nela manifesta-se
a glória de Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o
Filho amado de Deus.
Na verdade, onde é
que está a realização plena do homem? Quem tem razão: Deus, ou os esquemas
humanos que hoje dominam o mundo e que nos impõem uma lógica diferente da
lógica do Evangelho?
Pela
transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e
lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na
cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que,
como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.
Na verdade, os
homens do nosso tempo têm alguma dificuldade em perceber esta lógica… Para
muitos dos nossos irmãos, a vida plena não está no amor levado até às últimas
consequências (até ao dom total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os
seus interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado;
não está no serviço simples e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis,
dos mais marginalizados, dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio
uma dose generosa de poder, de influência, de autoridade, de domínio, que dê a
sensação de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida
como dom, com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado
de conquista de honras, de glórias, de êxitos.
Por vezes somos
tentados pelo desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus;
ou então, parece que, seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e
fracassados, que nunca integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca
chegaremos a conquistar o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado… A
transfiguração de Jesus grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois
a lógica de Deus não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva,
à felicidade sem fim.
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