O Livro de Job é um clássico da literatura universal. Além de uma
extraordinária beleza literária, este livro apresenta algumas das grandes
questões que o homem de todos os tempos coloca a si próprio: qual o sentido da
vida? Qual a situação do homem diante de Deus? Qual o papel de Deus na vida e
nos dramas do homem? Qual o sentido do sofrimento?
Para a catequese tradicional de Israel, a atitude de Deus em relação
aos homens estava perfeitamente definida: Deus recompensava os bons pelas suas
boas obras e os maus recebiam sempre um castigo exemplar pelas injustiças e
arbitrariedades que praticavam. A justiça de Deus – realizada sempre nesta
terra – era linear, previsível, lógica, imutável.
Deus é, de acordo com esta catequese, um Deus definido, previsível, que
Se limita a fazer a contabilidade das ações boas e das ações más do homem e a
pagar-lhe em consequência.
Na primeira leitura, um crente chamado Job comenta, com amargura e
desilusão, o facto de a sua vida estar marcada por um sofrimento atroz e de
Deus parecer ausente e indiferente face ao desespero em que a sua existência
decorre… Apesar disso, é a Deus que Job se dirige, pois sabe que Deus é a sua
única esperança e que fora d’Ele não há possibilidade de salvação.
Um dos sérios problemas que se punham aos cristãos de Corinto era o
problema de comer ou não comer a carne imolada aos ídolos.
A segunda leitura sublinha, especialmente, a obrigação que os
discípulos de Jesus assumiram no sentido de testemunhar diante de todos os homens
a proposta libertadora de Jesus. Na sua Acão e no seu testemunho, os discípulos
de Jesus não podem ser guiados por interesses pessoais, mas sim pelo amor a
Deus, ao Evangelho e aos irmãos.
O Evangelho deste domingo situa-nos em Cafarnaum, uma cidade situada na
margem norte do Lago de Tiberíades, na Galileia.
Estamos na primeira parte (cf. Mc 1,14-8,30) do Evangelho de Marcos.
Aí, Jesus é apresentado pelo evangelista como o Messias que proclama essa
realidade de um mundo novo – uma realidade que o próprio Jesus chama “Reino de
Deus”.~
Marcos mostra a realidade do “Reino” a atuar no mundo como salvação e
libertação, nas palavras e nos gestos de Jesus: com a autoridade que Lhe vem do
Pai (cf. Mc 1,21-22) e em comunhão total com o Pai, Jesus vence o mal e a dor
que escravizam o homem e anuncia um mundo novo de liberdade e de vida plena.
A atuação de Jesus no sentido de fazer aparecer o “Reino” é uma atuação
que não se limita ao espaço da sinagoga (cf. Mc 1,21-28); estende-se, também, a
outros ambientes e âmbitos, porque o “Reino de Deus” que Jesus veio propor
dirige-se ao homem em todas as suas dimensões e situações.
No Evangelho manifesta-se a eterna preocupação de Deus com a felicidade
dos seus filhos. Na Acão libertadora de Jesus em favor dos homens, começa a
manifestar-se esse mundo novo sem sofrimento, sem opressão, sem exclusão que
Deus sonhou para os homens. O texto sugere, ainda, que a Acão de Jesus tem de
ser continuada pelos seus discípulos.
O projeto de Deus para os homens e para o mundo não é um projeto de
morte, mas de vida; o objetivo de Deus é conduzir os homens ao encontro desse
mundo novo (o “Reino de Deus”) de onde estão ausentes o sofrimento, a maldição
e a exclusão, e onde cada pessoa tem acesso à vida verdadeira, à felicidade
definitiva, à salvação. Talvez nem sempre entendamos o sentido do sofrimento
que nos espera em cada esquina da vida; talvez nem sempre sejam claros, para
nós, os caminhos por onde se desenrolam os projetos de Deus… Mas Jesus veio
garantir-nos absolutamente o empenho de Deus na felicidade e na libertação do
homem. Resta-nos confiar em Deus e entregarmo-nos ao seu amor.
O encontro com Jesus e com o “Reino” é sempre uma experiência
libertadora. Aceitar o convite de Jesus para O seguir e para se tornar
“discípulo” significa a rutura com as cadeias de egoísmo, de orgulho, de
comodismo, de autossuficiências, de injustiça, de pecado que impedem a nossa
felicidade e que geram sofrimento, opressão e morte nas nossas vidas e nas
vidas dos nossos irmãos. Quem se encontra com Jesus, escuta e acolhe a sua
mensagem e adere ao “Reino”, assume o compromisso de conduzir a sua vida pelos
valores do Evangelho e passa a viver no amor, no perdão, na tolerância, no
serviço aos irmãos. É – na perspetiva da catequese que o Evangelho de hoje nos apresenta
– um “levantar-se”, um ressuscitar para a vida nova e eterna.
A história da sogra de Pedro que, depois do encontro com Jesus,
“começou a servir” os que estavam na casa, lembra-nos que do encontro
libertador com Jesus deve resultar o compromisso com a libertação dos nossos
irmãos. Quem encontra Jesus e aceita inserir-se na dinâmica do “Reino”,
compromete-se com a transformação do mundo… Compromete-se a realizar, em favor
dos irmãos, os mesmos “milagres” de Jesus e a levar vida, paz e esperança aos doentes,
aos marginalizados, aos oprimidos, aos injustiçados, aos perseguidos, aos que
sofrem. Os meus gestos são sinais da vida de Deus (“milagres”) para os irmãos
que caminham ao meu lado?

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