O Livro do Levítico apresenta-se como um conjunto de discursos nos
quais Deus teria explicado ao Povo o que este deveria fazer para viver sempre
em comunhão com Deus, no âmbito da Aliança.
Desde tempos imemoriais, certos “tabus” interditavam aos israelitas o
contacto com determinadas realidades (o sangue, um cadáver, certos tipos de
alimentos, etc.). O contacto com a “impureza” não era pecado; mas o homem devia
“limpar” a “impureza” contraída, logo que possível. O caso mais grave de
“impureza” era causado por uma doença – a lepra. É a essa realidade que o nosso
texto se refere.
A exclusão dos “leprosos” da comunidade tinha razões religiosas… Para a
mentalidade tradicional do povo bíblico, a doença era sempre um castigo de Deus
para os pecados e infidelidades do homem. Ora, uma doença tão assustadora e
repugnante como a “lepra” era tida como um castigo terrível para um pecado
especialmente grave. O “leproso” era considerado, portanto, um pecador,
especialmente amaldiçoado por Deus, indigno de pertencer à comunidade do Povo
de Deus.
A partir de uma imagem deturpada de Deus, os homens são capazes de
inventar mecanismos de discriminação e de rejeição em nome de Deus.
O texto que hoje nos é proposto é a conclusão do ensinamento sobre a atitude
a tomar face ao problema de comer ou não comer a carne dos animais imolados aos
ídolos
A segunda leitura convida os cristãos a terem como prioridade a glória
de Deus e o serviço dos irmãos. O exemplo supremo deve ser o de Cristo, que
viveu na obediência incondicional aos projetos do Pai e fez da sua vida um dom
de amor, ao serviço da libertação dos homens.
<no Evangelho encontramos o diálogo de Jesus com um leproso. A cena
coloca Jesus frente a um leproso, num sítio e num lugar não nomeado.
O leproso era o protótipo do marginalizado, do excluído, do segregado.
A sua condição afastava-o, não só da comunidade dos homens, mas também do
próprio Deus.
O Evangelho destaca a reação de Jesus. Uma reação estranha, pelo menos
de acordo com os padrões judaicos. Em lugar de se afastar do leproso e de o
acusar de infringir a Lei, Jesus olha-o “compadecido”, estende a mão e toca-lhe
(vers. 41).
Ao tocar o leproso, Jesus está a infringir a Lei. Dessa forma, Ele
denuncia uma Lei que criava marginalização e exclusão.
Jesus, com a autoridade que Lhe vem de Deus, mostra que a
marginalização imposta pela Lei não expressa a vontade de Deus. O gesto de
tocar o leproso mostra que a distinção entre puro e impuro consagrada pela Lei
não vem de Deus e não transmite a lógica de Deus; mostra que Deus não
discrimina ninguém, que Ele quer amar e oferecer a liberdade a todos os seus
filhos e que a todos Ele convida a integrar a família do “Reino”, a nova
humanidade.
O Evangelho diz-nos que, em Jesus, Deus desce ao encontro dos seus
filhos vítimas da rejeição e da exclusão, compadece-Se da sua miséria,
estende-lhes a mão com amor, liberta-os dos seus sofrimentos, convida-os a
integrar a comunidade do “Reino”. Deus não pactua com a discriminação e
denuncia como contrários aos seus projetos todos os mecanismos de opressão dos
irmãos.
A liturgia fala-nos de um Deus cheio de amor, de bondade e de ternura,
que Se faz pessoa e que desce ao encontro dos seus filhos, que lhes apresenta
propostas de vida nova e que os convida a viver em comunhão com Ele e a
integrar a sua família.
É um Deus que não exclui ninguém e que não aceita que, em seu nome, se
inventem sistemas de discriminação ou de marginalização dos irmãos.
Às vezes há pessoas (quase sempre bem intencionadas) que inventam
mecanismos de exclusão, de segregação, de sofrimento, em nome de um Deus
severo, intolerante, distante, incapaz de compreender os limites e as
fragilidades do homem. Trata-se de um atentado contra Deus.
O Deus que somos convidados a descobrir, a amar, a testemunhar no
mundo, é o Deus de Jesus Cristo – isto é, esse Deus que vem ao encontro de cada
homem, que Se compadece do seu sofrimento, que lhe estende a mão com ternura,
que o purifica, que lhe oferece uma nova vida e que o integra na comunidade do
“Reino” (nessa família onde todos têm lugar e onde todos são filhos amados de
Deus).
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