quinta-feira, 15 de novembro de 2018

hora da morte



O sol batia-me nos olhos e cegava-me
o vento suprava-me nos ouvidos e falava-me
as mãos tremiam pelo frio que fazia
e o coração ardia de compaixão...
Éramos poucos ali instalados na imensidão do cemitério
Coloquei a voz para que fosse ouvida por todos
ninguem respondeu e ninguem falou
olhares envergonhados e cabisbaixos..
Pensei naquela vida que ali se despedia
imaginei os 70 anos vividos por aqui, por aí
Pensei nas alegrias e sofrimentos vividos
e perguntei por ti: onde estiveste ?
Por onde andaste? onde te revelaste?
E o meu pensamento foi interrompido
alguém clamou: nem um filho nesta hora".
O abandono de ti imaginado
foi abandono de veras vivido na hora da morte.
E sepultamos aquela vida, sem lágrimas
sem dor nem piedade.
Já a caminho de casa, no meio da confusão da cidade
o meu coração exclamava:
"onde estiveste? onde estas? para onde vás?"

terça-feira, 6 de novembro de 2018

E depois ... tu

Noite, escuro, frio, duvida, medo,
Ao longe ouço os sons da vida,
As luzes assinalam vida 
No silêncio ....
Sentado olho o horizonte e penso 
Rio e choro de felicidade.
Estás e ao mesmo tempo não estás
Conheço-te e és estranho 
Vejo-te e não te reconheço 
E é bom estar assim . 
Reencontro-me comigo 
E neste reencontro estás ausente
Fico tranquilo 
Estás ausente e estás tão próximo
Eu estou aqui 
Hoje como ontem 
Se não nos encontramos
É porque não queres
É isso é bom 
Sou eu 
E tu serás tu ? 
Desejo que sim 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Rir ou chorar

Sabes .....
Há quem pense em ti e te imagine
Traçam-te contornos imaginários
Julgam saber o Teu nome
Afirmam com certeza o que não é.

Digo o teu nome mas não acreditam
Querem ser cegos e são cegos
Vêm mas não entendem
Ouvem mas não compreendem
E julgam-se sábios e inteligentes .

Mas este segredo é só nosso

Continuarei a procurar-te
Porque só te quero a ti
Porque só tu me bastas
E porque só eu sei quem es tu

Vamo-nos rindo de quem pensa saber
E afinal nada sabe.
Pobres coitados ....

sábado, 29 de setembro de 2018

Recomeço da busca

De novo em busca de ti. 
Parei na estrada 
Sentei-me no caminho 
As luzes do carro morrem na curva
Estou só 
Triste
Mas não tenho medo 
Sinto-me protegido 
Querido
Escolhido .
Caminho pela estrada 
Procuro-te 
E não te encontro.
Estiveste aqui 
Sinto o que sentiste 
Cheiro a tua presença 
Mas não estás .
E grito na noite:
Onde estás? Diz-me por favor . 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Daniela



Chama-se Daniela, acaba de deixar este mundo
Além de ter tido uma curta vida,
a que teve foi vivida sob o signo da doença.
Conheci-a

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Tinha 7 anos

No passeio da rua
Na escuridão da noite
No silencio da madrugada
Chorava uma menina

Na igreja da Praça
Debitavam-se orações
Na esplanada do café
Comentavam-se notícias

Numa casa da aldeia
Num quarto escuro
Churavam-se receios
Adivinhavam-se certezas

A menina apareceu
Os receios concretizaram-se
A Praça amanheceu
E na igreja a missa não parou

De regresso a casa
Sozinho na rua
Paro e pergunto
Onde estas ?

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Rua escura

As ruas da minha cidade estavam escuras
O pó misturava-se com as primeiras gotas
E cheirava a terra .

As luzes dos carros tornavam-se pequenas

As montras fechavam-se lentamente

Exausto e ofegante parei na praça maior
Estava deserta e parecia estar adormecida
Olhei em volta e procurei por Ti

Gritei o Teu nome
Invoquei o Teu poder
Supliquei a Tua misericórdia
Chorei a Tua força

E Tu ficaste em silêncio .
Não te vi, não te ouvi , não te encontrei .

E regressei pela mesma rua, agora mais deserta e mais escura .