terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Noite fria

 

Noite fria

 

Nestes primeiros dias deste novo ano sinto tão perto a eternidade que chego a temer esta sensação. Não sei se por causa do Covid ou se pelo percurso normal da história, a morte tem estado presente todos os dias. A morte de conhecidos e de desconhecidos, é igual porque é sempre a morte.

A forma como sou agora obrigado a viver este momento faz-me tocar e sentir mais a verdade do mesmo. Pode parecer estranho, mas a verdade é que os funerais frios que fazemos neste tempo de pandemia, tornam-se mais quentes e mais vividos.

Agradeço a Deus por isso.!

A frieza destes funerais começa nas famílias que não podem ver, nem morto, aquele que amaram em vida. Muitas vezes essa morte é o culminar de um afastamento imposto pelo hospital, o que prolonga mais a sensação de solidão e abandono. Depois, a forma fria com que não são vestidos os nossos mortos; a ideia de que vão fechados num saco de plástico; a notícia fria que nos dão para “ir buscar o corpo” e a frieza de sermos poucos a estar no momento derradeiro; tudo isso culminando na frieza com que o mundo continua a girar indiferente ao sofrimento de quem sente todos estes frios, tudo junto faz com que os que pudemos estar ali nos últimos momentos demos mais valor ao adeus e à despedida.

Sem cortejos festivos, sem amigos presentes, sem lágrimas escorridas, e sem músicas suaves, assim se vão despedindo os que viveram connosco e até nos deram a vida. Com eles aprendemos a ser gente e com eles pisamos as ruas da nossa cidade. Agora nem um adeus, nem uma mão quente lhes damos no momento da despedida.

Dói ver esta forma fria de sepultar os mortos. Mas ao mesmo tempo, como disse, este nada e esta pobreza, transforma-se em riqueza interior. Só se faz presente quem verdadeiramente está presente; só compreende quem verdadeiramente partilha o momento; só escuta a Palavra quem verdadeiramente veio para escutar. E nunca como hoje sinto a verdade da oração e da fé no momento derradeiro.

Deus sempre se mostrou e se manifestou no vazio, na pobreza, na miséria no nada. E continua hoje a faze-lo de forma tão sublime que desperta em mim o desejo de ir agora ao seu encontro.

Fecharam as portas do cemitério; regressamos às nossas vidas e nas nossas casas frias  os ecrãs apresentam de forma fria os números de mais um dia de pandemia. Mas não pode haver frio que resista ao calor do sol destes dias soalheiros.

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