quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

As rotinas que nos atrofiam



Parar por uns breves momentos e refletir sobre os caminhos percorridos, as velocidades alcançadas e as metas buscadas, traz o amargo gosto da constatação da inercia que habita em nós. Diz-se por aí que precisamos “sair da zona de conforto” porque na verdade vivemos demasiado seguros, tranquilos (?), nas nossas certezas de sempre. Preferimos na verdade o adágio que preconiza que “em equipa que ganha não se mexe” e aí vamos nós fechados nos hábitos, ditos e feitos de outros tempos. A todo o custo queremos implementa-los nos tempos que são outros e por vezes são até antagónicos. Como se pode hoje querer que os mais novos brinquem às escondidas como outrora fazíamos. Fazíamos porque não havia mais nada para fazer. Hoje com tanta variedade e tanta solicitação, porque teimar em fazer o que se fazia há 30, 40 ou 50 anos? 
E lentamente vamos matando o Espirito que há em nós e que se define precisamente por ser inovador e descobridor de novos caminhos.
E se aplicarmos à fé, à religião, estas ideias ficamos com um chuvilho de aberrações, alienações que para além de serem estéreis provocam até o afastamento e a distancia. Cheiram a bafio muitas das nossas igrejas e das nossas sacristias, porque nelas se amontoam esquemas, papeis e estratégias de outrora. E o bafio tende a tornar-se putrefacto e a gerar mortes lentas e agonizantes.
Precisamos muito de abrir as janelas e deixa entrar ar novo. Sim, mete medo (sobretudo para quem gosta de ficar instalado nas certezas de ontem), é um risco, mas é também um desafio e uma aventura que por si só (como gesto) fala da verdade que anima a nossa fé: “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz mas não sabes de onde vem nem para onde vai” assim é o Espirito que anima a Igreja. Deixemos que esse ar entre na nossa sala. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Manhas

As noites foram frias e curtas, embora parecessem longas e quentes. Houve lagrimas e sorrisos. E a manha chegou coberta de gelo. Pensei ficar parado, pensei desistir. Depois atrevi-me e aqui estou de novo. Falaremos

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Upgrade


A segunda semana do Tempo do Advento é um desafio forte e veemente ao arrependimento. Encontramo-nos com a figura enigmática, rude e austera de João Batista. Ouvimos os seus gritos ruidosos e persistentes que clamam no deserto “preparai os caminhos do Senhor”. E sentimos de forma intrigante e algo incomodativa o seu desafio maior “arrependei-vos! Praticai ações que sejam conformes a vosso arrependimento”.
Parei por estes dias para pensar um pouco sobre este arrependimento. Interroguei-me sobre a sua necessidade que parecia por em questão os esforços que diariamente procuro fazer. Sim porque se todos os dias tento crescer e praticar ações conformes à fé, porque razão me devo mais uma vez arrepender? Sei que os esforços serão sempre omissos, poderei sempre ir mais longe. Mas também me parece que a necessidade do perdão continuado e do arrependimento me leva a questionar sobre a utilidade dos esforços que de forma consciente e séria tenho feito.
No meio da divagação e até do desconforto destas ideias, o disco rígido do PC acusou falta de espaço. Logo agora que tinha mil e um arquivo para salvar e guardar. A solução foi a mais obvia: libertar espaço apagando ficheiros antigos e até programas desnecessários. Lixo que ao longo dos tempos se foi acumulando e ocupando espaço, impedindo que ficheiros novos fossem guardados. Foi um trabalho longo e moroso, de uma manhã inteira.
E ao meio dia encontro-me serenamente no silencio da oração e ouço uma voz, qual João Batista clamando no deserto: Liberta espaço no teu coração; prepara um lugar para que o salvador possa entrar nele e habitar em ti”.
Afinal o arrependimento é mesmo necessário, mesmo que entendido como libertação do lixo que no meu interior ocupa espaço que o Menino-Deus pretende ocupar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Lei e espirito da Lei



A lei e o Espirito

A liturgia ferial dos últimos dias tem apresentado um dilema antigo e que se prende muito com a vivência da Fé. Porque ela não é um mero sentimento e não se reduz a uma tradição, nem mesmo ao assentimento a um conjunto de doutrinas; porque ela é vida e pressupõe atitudes e comportamentos, É normal que nos questionamos: a fé consiste em obedecer de forma cega à normas, aos preceitos doutrinais, ou haverá algo mais que ultrapasse essa forma de a entender? Dito de outra forma, bastará para o crente conhecer e cumprir as leis, ou haverá algo mais necessário para uma correta vivência da fé?
Todos percebemos que é preciso algo mais. Dizemos até que as ações requerem intenções. Mas mais que intenções falamos aqui de Espírito. Ou seja, não chega por si só cumprir normas e preceitos doutrinais. É preciso compreendê-los e perscrutar a verdade que essas leis e esses preceitos procuram atingir. Assim é preciso compreender o espírito da lei. Como? Abrindo-se á voz do Espírito.
Esta dicotomia, Lei e Espírito, é de tal importância que gerou divisões na igreja. E o problema está ainda por esclarecer. Para já é urgente que o cristão se questione: vivo pela força da Lei ou pelo contrário vivo na abertura sincera à voz do Espírito?
Pensemos nisto.