Caminhamos a
passos largos para a Páscoa. A liturgia do 4º domingo da quaresma é uma ajuda
para vislumbrarmos melhor o sentido desta festa e também da penitência que
entretanto vivemos.
A primeira leitura
refere dois factos históricos separados por quase 50 anos: a queda de Jerusalém
nas mãos de Nabucodonosor (586 a.C.) e a autorização dada pelo rei persa Ciro
para o regresso dos exilados a Jerusalém, após a queda da Babilónia (538 a.C.).
Pelo meio, o Povo de Deus conheceu a dramática experiência do Exílio na
Babilónia. Contudo, o autor está muito mais interessado em dar-nos uma
interpretação teológica dos factos do que em oferecer-nos uma descrição
pormenorizada dos acontecimentos históricos.
Por detrás desta
leitura da história, está uma noção um tanto ou quanto primitiva da justiça de
Deus: quando o Povo vive na fidelidade à Aliança e aos mandamentos, Deus
oferece-lhe vida e felicidade; quando o Povo é infiel aos compromissos assumidos,
conhece morte e desgraça. De qualquer forma, o Cronista está consciente de que
o castigo não é a última palavra de Deus.
A primeira leitura
diz-nos que, quando o homem prescinde de Deus e escolhe caminhos de egoísmo e
de autossuficiência, está a construir um futuro marcado por horizontes de dor e
de morte. No entanto Deus dá sempre ao seu Povo outra possibilidade de
recomeçar, de refazer o caminho da esperança e da vida nova.
A segunda leitura
apresenta-se como uma carta escrita por Paulo, numa altura em que o apóstolo
está na prisão (em Roma?).
O texto que nos é
proposto apresenta-nos uma reflexão sobre o papel de Cristo na salvação do
homem. O ponto de partida do autor da Carta aos Efésios é a constatação da
situação de pecado em que o homem vive e da qual, por si só, não pode sair. O
homem estará, portanto, condenado à escravidão do pecado e à morte?
Deus é rico em
misericórdia e ama o homem com um amor imenso. Por isso, à situação pecadora do
homem, Deus responde com a sua graça. O amor salvador e libertador de Deus não
é um amor condicional, que só se derrama sobre o homem se e quando o homem se
converte; mas é um amor incondicional, que atinge o homem mesmo quando ele
continua a percorrer caminhos de pecado e de morte.
A segunda leitura
ensina que Deus ama o homem com um amor total, incondicional, desmedido; é esse
amor que levanta o homem da sua condição de finitude e debilidade e que lhe
oferece esse mundo novo de vida plena e de felicidade sem fim.
O Evangelho
apresenta-nos uma parte da conversa entre Jesus e um “chefe dos judeus” chamado
Nicodemos
No texto que nos é
proposto, Jesus começa por explicar a Nicodemos que o Messias tem de “ser
levantado ao alto”, como “Moisés levantou a serpente” no deserto. A imagem do
“levantamento” de Jesus refere-se, naturalmente, à cruz. É aí que Jesus
manifesta o seu amor e que indica aos homens o caminho que eles devem percorrer
para alcançar a salvação, a vida plena.
Aos homens é
sugerido que acreditem no “Filho do Homem” levantado na cruz, para que não
pereçam mas tenham a vida eterna. “Acreditar” no “Filho do Homem” significa
aderir a Ele e à sua proposta de vida; significa aprender a lição do amor e
fazer, como Jesus, dom total da própria vida a Deus e aos irmãos (vers. 15). É
dessa forma que se chega à “vida eterna”.
Somos convidados a
olhar para Jesus, a aprender com Ele a lição do amor total, a percorrer com Ele
o caminho da entrega e do dom da vida. É esse o caminho da salvação, da vida
plena e definitiva.
O amor de Deus
traduz-se na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita,
incondicional, absoluta, válida para sempre e que não discrimina ninguém. Aos
homens – dotados de liberdade e de capacidade de opção – compete decidir se
aceitam ou se rejeitam o dom de Deus.
Às vezes, os
homens acusam Deus pelas guerras, pelas injustiças, pelas arbitrariedades que
trazem sofrimento e morte que pintam as paredes do mundo com a cor do
desespero… A liturgia deste domingo diz-nos que o sofrimento e a morte não vêm
de Deus, mas são o resultado das escolhas erradas feitas pelo homem que se
obstina na autossuficiência e que prescinde dos dons de Deus.
O cristão não vive
no medo, pois ele sabe que Deus é esse Pai cheio de amor que oferece a todos os
seus filhos a vida eterna. Não é Deus que nos condena; somos nós que escolhemos
entre a vida eterna que Deus nos oferece ou a eterna infelicidade.
A liturgia aponta
ainda o caminho que todo o homem deve seguir para chegar à vida eterna:
trata-se de “acreditar” em Jesus. “Acreditar” em Jesus não é uma mera adesão
intelectual ou teórica a certas verdades da fé; mas é escutar Jesus, acolher a
sua mensagem e os seus valores, segui-lo nesse caminho do amor e da entrega ao
Pai e aos irmãos. Passa pelo ser capaz de ultrapassar a indiferença, o
comodismo, os projetos pessoais e pelo empenho em concretizar, no dia a dia da
vida, os apelos e os desafios de Deus; passa por despir o egoísmo, o orgulho, a
autossuficiência, os preconceitos, para realizar gestos concretos de dom, de
entrega, de serviço que tragam alegria, vida e esperança aos irmãos que
caminham lado a lado connosco.
Neste tempo de
caminhada para a Páscoa, somos convidados a converter-nos a Jesus e a percorrer
o mesmo caminho de amor total que Ele percorreu.
