No primeiro
Domingo do Tempo da Quaresma, a liturgia fala-nos do Reino de Deus como
expressão ou imagem do mundo que Deus quer dar à humanidade. A construção deste
mundo novo exige a destruição do antigo.
Pedimos ao
Senhor que fomente em nós as atitudes necessárias para sermos construtores
deste novo mundo.
O texto da primeira leitura situa-nos
na fase imediatamente posterior ao dilúvio, quando já tinha deixado de chover e
quando Noé e a sua família já tinham desembarcado em terra seca. Os
sobreviventes construíram um altar e ofereceram holocaustos sobre o altar; por
sua vez, o Senhor Deus comprometeu-Se a não mais “castigar os seres vivos” de
forma tão radical (cf. Gn 8,13-22), abençoou Noé e a sua família (cf. Gn 9,1-7)
e fez uma Aliança com eles.
A Aliança de Deus com Noé
não implica nenhuma adesão ou reconhecimento da parte do homem, nem implica
qualquer promessa, por parte do homem, no sentido de não voltar a percorrer
caminhos de corrupção e de pecado. A Aliança que Deus faz com Noé aparece,
assim, como um puro dom de Deus, um fruto do seu amor e da sua misericórdia. É
uma Aliança incondicional e sem contrapartidas, que resulta exclusivamente da
bondade e da generosidade de Deus.
O texto da segunda leitura é
a parte final de uma perícopa (cf. 1 Pe 3,13-4,11) na qual o autor da carta
explica qual deve ser a atitude dos crentes, confrontados com as provocações,
as injustiças e a hostilidade do mundo. Depois de pedir aos crentes que mesmo
no meio do sofrimento não se cansem de fazer o bem (cf. 1 Pe 3,13-17), o autor
da carta apresenta a razão fundamental pela qual os crentes devem agir desta
forma tão “ilógica”: esse foi o exemplo que Cristo deixou.
Na segunda leitura, o autor
da primeira Carta de Pedro recorda que, pelo Batismo, os cristãos aderiram a
Cristo e à salvação que Ele veio oferecer. Comprometeram-se, portanto, a seguir
Jesus no caminho do amor, do serviço, do dom da vida; e, envolvidos nesse
dinamismo de vida e de salvação que brota de Jesus, tornaram-se o princípio de
uma nova humanidade.
O Evangelho situa-nos na
Galileia, zona em permanente contacto com o mundo pagão e, portanto,
considerada à margem da história da salvação.
Mais do que uma descrição
fotográfica de acontecimentos concretos, trata-se de uma catequese. Está
carregado de símbolos, que é preciso descodificar para entender a mensagem
proposta.
Temos aqui uma catequese
sobre as opções de Jesus. Marcos sugere que, ao longe de toda a sua existência
(“quarenta dias”), Jesus confrontou-Se com dois caminhos, com duas propostas de
vida: ou viver na fidelidade aos projetos do Pai, fazendo da sua vida uma
entrega de amor, ou frustrar os planos de Deus, enveredando por um caminho
messiânico de poder, de violência, de autoridade, de despotismo, ao jeito dos
grandes deste mundo. Jesus escolheu viver na obediência às propostas do Pai; da
sua opção, vai surgir um mundo de paz e de harmonia, um mundo novo que reproduz
o plano original de Deus.
Jesus mostra-nos como a
renúncia a caminhos de egoísmo e de pecado e a aceitação dos projetos de Deus
está na origem do nascimento desse mundo novo que Deus quer oferecer a todos os
homens (o “Reino de Deus”).
Para que o
“Reino de Deus” se torne uma realidade, o que é necessário fazer? Na perspetiva
de Jesus, o “Reino de Deus” exige, antes de mais, a “conversão”.
“Converter-se”
significa transformar a mentalidade e os comportamentos, assumir uma nova
atitude de base, reformular os valores que orientam a própria vida. É
reequacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da existência
do homem e ocupe sempre o primeiro lugar. Na perspetiva de Jesus, não é
possível que esse mundo novo de amor e de paz se torne uma realidade, sem que o
homem renuncie ao egoísmo, ao orgulho, à autossuficiência e passe a escutar, de
novo, Deus e as suas propostas.
“Acreditar” não
é, apenas, aceitar um conjunto de verdades intelectuais; mas é, sobretudo,
aderir à pessoa de Jesus, escutar a sua proposta, acolhê-la no coração, fazer
dela o guia da própria vida. “Acreditar” é escutar essa “Boa Notícia” de
salvação e de libertação (“evangelho”) que Jesus propõe e fazer dela o centro à
volta do qual se constrói toda a existência.
“Conversão” e
“adesão ao projecto de Jesus” são duas faces de uma mesma moeda: a construção
de um homem novo, com uma nova mentalidade, com novos valores, com uma postura
vital inteiramente nova. Então, sim teremos um mundo novo – o “Reino de Deus”
